terça-feira, 31 de julho de 2012

(sem título) - Rolando Vezzoni

Ele estava naquele cômodo.
Dum lado uma centena de lacunas, abismos, espaços vazios... Um puro espaço potencial a ser ocupado por bestialidades, futilidades e maravilhas.
Noutro vê-se algo como uma estante, repleta de matéria e referência, réplica e interrogações, uma parede branca suja com uma projeção de filme em preto e branco, mesclado por sujeiras escarlates e cheiro de ressaca, passando aquelas coisas todas em um loop inconstante e surpreendentemente inovador, emocional, magoado e conformado.
Na frente não há paredes, é um espaço de contemplação variada, simples, um contato com o "não-sei" escarrado pela latência.
Ele olhou pro cômodo todo, incomodado, no cômodo incômodo.
Não tem muito jeito, quando se lembra que se está ali, entender que é tudo fluxo, corrente, e não tem retorno, no fundo dos cômodos só se tem a parede... Bom, ele acreditava nisso, no imperativo básico do momento, do inevitável "estar" e no pretender, na ausência de sentido de "ser", um agora que é olímpico.
Era olímpico, mas não é mais, porque está permanentemente sendo subjugado por outro agora.
"há!", Essa foi a única onomatopeia cabível a seu raciocínio, um grunhido pulsional seguido por uma quase erótica exclamação... "já que da vida, só se herda ponto final!"
E continuou prosseguindo no cume de sua sobrancelha, na prisão de marfim branco contemplativa, pois ele não vive lá, é aquilo lá. Ao menos até se esquecer de tudo isso e ir trabalhar...
Há!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Atmosfera sombria - Bruno Santana


como passar frio na neblina Londrina
ou estar faminto em Paris;
mas isso, nunca viverei.

Passarei vergonha em uma rua elegante
entre garotas bonitas
e seus seguranças
enquanto ostento uma camisa desbotada
e esgarçada;
assim como a alma dos que vivem bem
comem bem
vestem bem
e cheiram bem.
despeito talvez
Mas, é apenas o que a vergonha causa,

E excita
e cria a Atmosfera sombria;
negra e fria,
na tarde desocupada,
entre livros pesados e músicas complexas
e desenhos preoucupantes
e calculações sem sentido
de uma vida que brota
nasce em negro
e não é cegada pela luz do sol.

Não preciso da noite para escurecer.

Negra para capturar,
toda forma de energia que encontrar
e nunca dividir
nada de si
por que o negro não fala,
o negro escuta,
o negro absorve.

Não preciso da noite para escurecer.

talvez seja uma tonalidade a ser desaprovada,
por pais e professores de pintura,
por encardirem os quadros
mas, em realidade, aqueles que a sabem usar
são os verdadeiros mestres
mestres no escuro.

Não preciso da noite para escurecer.

domingo, 10 de junho de 2012

Soneto á Van Gogh- Rolando Vezzoni

Eu tenho uma arma, ela brilha e corta
e tenho uma pintura brilhante e torta.
Com o pincel, Gouguin também brilha,
e meu sangue opaco, é uma maravilha.

O quadro foi perfeitamente executado,
o corte foi um perfeito fracasso.
O corte fez um estardalhaço,
e o quadro foi guardado.

Meu sangue foi devidamente envelopado,
e meu amor á puta há de ser lembrado,
foi isso que li, obviamente não ouvi.

100 anos se passaram, e já sou um cadáver putrefato,
se fosse bicentenário seria um milionário de fato.
Mas não fui, não tive a puta, Gougin, sucesso ou sequer orelha.

domingo, 3 de junho de 2012

Numero sete- Bruno Santana


Quatrocentos e vinte garotos pensam na vida:
Número um fuma;
Número dois parou;
Número três pinta;
Número quatro desenha escondido;
Número cinco malha;
Número seis toca violão;
Número sete escreve;
Os  quatrocentos e treze restantes pensam em garotas.
Muitas pensam no número um;  ele não pensa em ninguém. Ele pensa com o seu cigarro; o cigarro é tudo que precisa.
Nenhuma pensa no número dois, por isso ele decidiu parar. Parar de fumar, tomar banho, fazer a barba, esconder as espinhas, combinar  as roupas, ficar sóbrio e falar com aquela em que ele pensa. Foda-se se ela não pensa nele.
A modelo nua pensa ter fisgado o número três com seu corpo, mas número três está bem preocupado com o tom de seu cabelo e o preço das telas. Depois da sessão eles vão transar, mas ele, realmente, se preocupa com o preço das telas.
A única que pensa no número quatro é a mãe. Pensa que o filho está doido. Não sabe por que o menino ficou tão sozinho e acabrunhado.
Número cinco pega todas. Número seis também, mas  número seis é um bom rapaz. Sim, sim, ele é um bom rapaz.
Número sete escreve porque já fumou. Já parou quatro vezes. Tentou pintar, mas detestou o que viu na tela. Ele, definitivamente, tem medo de ser internado. Número sete já tentou fazer academia, mas é entediante demais para ele. Ele toca violão.
Toca violão e pensa em todas as quatrocentas e treze outras garotas.
Ele pensa em tudo. Garotas, garotos, cigarros, violões, quadros, academias e romances.
Não, romances não. O número sete parou de pensar em romances.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Cores - Bruno Santana


Tenho sonhado com cores:
Cores diversas
De paleta complexa
Sintéticas e naturais

Misturadas e arranjadas
em peças coloridas
de vivacidade fantástica
e encanto indescritível

Tenho sonhado com cores,
Pensado em tons,
Composto nuances,
Feito misturas

Cores oníricas
Cores em pó
Cores em caldo
Cores em canto

Encantando o poeta
perturbando o sono
preenchendo a noite
rearranjando pensamentos

Cores não aparecem em vida
Cores estreiam em sonhos
Cores desbotam ao sol
Cores, cores, cores, cores.

Cores me dizendo
para correr ao pincel
deitar à tela cada angústia
pensamento, confusão e loucura

Transformando em composição
tudo aquilo que foi
e deve ser rearranjado
Para um dia ser encerrado.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Aos covardes e seus poemas- Rolando Vezzoni


   Chegou a sua casa e abriu um vinho, era ácido e charmoso (charmoso e ácido por já ter sido vinho algum dia, e hoje lembrar vinagre), tanto quem toma... Quanto o que se toma.
   Ficou desorientado, sempre que chega em casa fica assim, bocejou e deitou no chão, com a garrafa perfeitamente equilibrada, depois acendeu um cigarro.
    “médio? Mérdio.” Sorriu “ela realmente incomoda, um grande avanço!” da uma tragada “huuum... uma apatia simpática, grande avanço, é tudo que eu preciso”.
   Uma, ou até duas horas passaram,  lembrou-se de um bom amigo, que sempre andava com uma agenda onde anotava todo o tipo de pensamento, desde o mais banal, até a maravilhosa caricatura da perspicácia e genialidade.
    Algo muito peculiar acontecia com seu amigo, por mais que muito pudesse, jamais escrevia nada, se maquiava de mudo, talvez não por medo, ou o quer que fosse, na verdade era provavelmente por preguiça e falta de fé em sua realização. Se não realiza, como poderá ficar minimamente frustrado?
    “é bem fácil pensar nisso, mas... pensar nisso não pode vir do nada” riu, e sabia que iniciaria uma sistemática sessão de autoanálise “merda, talvez se eu resolver essa garrafa mais rapidamente, dê tempo de parar essa porra”.
    Uma vez seu amigo escreveu um poema, sim, uma vez... “muito bom inclusive!” dizia ele,
Mas o fato é: o poema foi perdido, e como é sabido que não se pode escrever o mesmo bom poema duas vezes, nunca mais escreveu nada.
    “acho que ele não é o único assim” um bocado de cinza caiu no chão e fez uma montanha pequena, épica e cinza ”quero fazer algo que ninguém pode fazer por mim, mas o banheiro é muito longe, vou segurar” tinha plena consciência da sua dificuldade de levantar e fazer o que precisa (em todos os aspectos da sua vida, sabe tão bem que a vida continua que acaba só esperando ela continuar).
     Recebeu uma mensagem de sua grande apatia simpática, leu, e respondeu com dificuldade a mensagem dela.
     “uma noitada vazia demanda mais noitadas vazias, quando para, sente que a cabeça vai explodir, a fragilidade vem à tona” encolheu-se tentando segurar, constatou que o cigarro apagou e acabou o vinho, então cheirou a boca da garrafa.
    O vinho não tem que ser bom, só tem que ser vinho, o cheiro quase não muda, é sempre um  vapor etílico roxo que entorpece as narinas perfumando, e avermelha a face, tem cheiro de porre, de paixão, ou de qualquer outra coisa do tipo.
     “Meu colega perdeu o poema, será que ele tem prisão de ventre?” riu “em que caralhos eu estou pensando?” sabia que tinha alguma coisa em algum lugar, não sabia o que era “médio, definitivamente mérdio”.
     Levantou e foi ao banheiro, claro, esperando a próxima mensagem, e rindo pensando em quanto tempo demoraria para que ele mesmo perdesse seu poema.

domingo, 20 de maio de 2012

Floresta cibernética- Bruno Santana


Florestas cinéticas
transparecendo em folhas ciberbéticas
da rua de volta
da casa para escola.

Correndo no cascalho
na estória que não poderia ser errada
uma manga cai no chão
as meninas riem, se riem todas.

O sinal é antes de tudo
hora de correr pelo pátio
hora de escapar
de qualquer amarra católica.

Agora enfrento, até o mais valente de 1998
as esferas não são de chumbo
a aro forte azul não me espera
hoje coloco meus pés fora da terra.

Acerta como aço incandescente
a têmpora descoberta pelo cabelo certo
perto da casa do otário
um soco resvalado, me apagando pelo lado.

Cai, chorei, rastejei
o valentão sorria, gargalhava e as garotas acenavam
aproximaram-se para olhar o cadáver
e abraçar o canalha.

A aro forte azul chegou
de barba, botina, camisa e calça jeans
me arrancou pelo colarinho e jogou-me na garupa
contando histórias

de porque não brigar por um boi,
mas não sair nem por uma boiada.

domingo, 13 de maio de 2012

Parada- Tomás Fernandes

Nesse exato momento estou sentado num banco numa parada de ônibus no meio da estrada. A caneta de plástico na minha mão está gelada, preferia ter um lápis um apontador e uma borracha, afinal sempre há o medo de borrar um pouco essa pedaço de papel envelhecido que deve ter encontrado no meio das minhas coisas. Na verdade já borrei um pouco.
Um velho está sentado ao meu lado. Ele fuma um cigarro e lê uma revista, de um tipo qualquer que pode ser lida por qualquer pessoa sentada num banco. O cigarro é de uma marca padrão, assim como o meu e também minha caneta, meu caderno e até nossas roupas que nem distinguem a nossa idade; ainda assim é o meu cigarro, a minha caneta, o meu caderno e as minhas roupas, tenho certeza disso. Não que isso faça diferença pra ele, que está apenas esperando o ônibus. Ppara mim por outro lado faz toda a diferença do mundo a minha caneta ter um sabor um pouco diferente daquelas que eu mordiscava nas aulas de geografia do ginásio.
Talvez já tenha conseguido explicar que na verdade não estou esperando qualquer um dos ônibus que estão na minha frente. Na verdade espero muito mais: ainda não sei qual eu vou pegar, embora devesse continuar seguindo pelo mesmo que vai levar ao destino que eu deveria ter escolhido quando o peguei. Claro, isso vai exigir um pouquinho de trabalho: subir ás escondidas e procurar um lugar vazio, encontrar algum motorista mais simpático que aceita um pequeno capricho desses, ou algum mais solícito ao dinheiro que guardo no bolso e me deixe sentar ao seu lado para ver a estrada (A estrada porque todas as estradas enquanto estradas são sempre a mesma coisa).
Mas, por que? Tem algum sentido nos meus atos? Gostaria tanto que tivesse, que fosse uma vontade pura, algo impensado e necessário, mas na verdade não sinto isso. Também não sinto querer chegar em algum qualquer lugar, quero na verdade não saber onde vou chegar, espero na verdade nunca chegar. Nada muito difícil, é só subir em qualquer um deles e descer na próxima parada. Não em uma cidade por favor, não quero identidade nenhuma, algum lugar como esse aqui.
Seria tão mais óbvio se fosse um ato de coragem, de perseguir a liberdade ou algo do gênero. Óbvio mas muito mais verdadeiro, muito mais...seguro de uma maneira boa. Não, é a outra opção óbvia, estou fugindo. Uma fuga completa, pura, a fuga pela fuga, quero entrar nela e viver para todo o sempre(ou pelo menos no tempo que é todo o sempre).
Minha mulher me disse que para quem é corajoso tudo se resolve. Na verdade aí o corajoso é aquele que se dispõe, o que consegue perceber o momento, sua condição e ainda assim atravessar isso, para moldar então o próximo instante. Eu sou um covarde, sempre fui um covarde, só posso querer ser um covarde, á parte isso não tenho em mim nenhum dos sonhos do mundo. Eu quero os sonhos do mundo, droga, só que isso é um capricho grande demais pra um covarde, então agora eu quero só o mundo.
Por ser um covarde tomei todas as pílulas que suavizam o inferno, o caos. Mulher, comida, dinheiro, livros... Mas cada vez o efeito era menor e menor e menor, ao mesmo tempo em que isso criava sua própria vida que se tornava então a minha própria. Uma vida externa a mim... e há anos não há outra.
Toda vida tem como objetivo acabar. Normalmente isso acontece quando falta ar nos pulmões ou o sangue pára de circular. Comigo não aconteceu nada disso. Um dia cheguei um pouco mais cedo do trabalho depois de passar na casa da minha amante e quando entrei em casa descobri minha mulher com o próprio amante. Eu já sabia, ela já sabia que eu sabia e os outros também. 
Eu poderia muito bem ter dito um oi, desculpe por atrapalhar, que tal um vinho? E quase fiz isso: antes de perceberem estava na cozinha pegando uma garrafa, mas de repente resolvi seguir a bula à risca. Quebrei a garrafa na cabeça dele, joguei minha mulher no chão e senti o prazer da ira(que surgiu dentro dos conformes). Até cai de bruços e comecei a soluçar no auge da autopiedade, que acalorava todo meu corpo naquele momento. O homem foi embora e minha mulher em vez de me abraçar pedindo desculpas, disse que eu era um idiota.
Enquanto eu ficava falsamente estupefato com a resposta dela, minha esposa ia jogando pela janela tudo o que era meu que encontrasse pela frente. Um livro que ela mesma havia me dado uma semana antes, todas as minhas roupas, meus cds, meus livros, quadros, fotografias... Parecia que toda a minha vida ia caindo na rua e se despedançando sob as rodas dos automóveis. E era impressionante a beleza daquilo, a destruição de todas aquelas coisas sem o menor significado, cds ouvidos só pelo ouvido, livros lidos só pelos olhos...
Foi assim, perdi aquilo que eu chamava vida, não estou aqui para procurar outra, ou para criar outra. Poderia ter me suicidado há tempos, mas não consegui, posso destruir o corpo que sobrou, mas já disse que sou covarde. Só quero me envolver totalmente na covardia agora.
Não vou escolher o ônibus. Agora boto uns óculos escuros, fecho os olhos, coloco minha caneta sobre o caderno e a giro. Sinto com as mãos para onde está apontando e vou cego até o ônibus. Ninguém abordaria um cego, é claro. Agora abro os olhos, escolho um assento. Por sorte não há ninguém.

Lados congratulados -Jéssica Dacquarica


Me brota instinto de projetar na sua mente
o que a barreira das anti ilusoes
anti prisoes e anti razoes
te impede de avistar

O meu Eu Sensato diz:
"eis que me surge perante o peito
mais um alguem que arranca
parte de mim e a personifica
numa audaciosa hiperbole ambulante
rabiscando o certo e o errado por onde passa
sem ter quem que por si o faça
sistematicamente intuido a mostrar
sua tese against the system

todavia, o meu Eu Procrastinador
proclama impetuosamente
a independencia da complexa personalidade singular
nao sobrevive o fim nem o inicio
celebre a vida

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Resposta á carta- Rolando Vezzoni


Não há como pensar forma melhor de responder uma carta sem um remetente, mas dois, e nenhum, do que um versar confuso e arrematado, um poema de anexos e conclusões.

O tempo corre, mas hei de tardar minha partida.
Fugir sem resoluções é arbitrário e covarde.
Sou demasiado travado, evito narrar-te o correr da vida.
Querida, sinto por dificultar, mas só assim agirei.
Estoico, estranho e estúpido, assim de verdade.

Despreocupado, sim, mas não indiferente.
Não se engane, procuro as mesmas coisas, mas mudo meu procurar.
Vou sempre te amar do meu jeito, eventual e distante,
é a moderada oscilação entre a sublimação e o tentar.

Dentre todos os muitos intempéries vitais,
clamo, agora, apenas por seu não agir, despretensiosamente.
Não sofra, mas, sou um melancólico sorridente,
um apático, muito apegado á meu direito de ser infeliz.

Não consigo te proteger, e não quero ser protegido,
se sou assim, não se martirize, pois amo esse sentimento...
...pela simples razão de sê-lo, e não quero tratamento.
Aí o paradoxo, meu problema é meu vetor, e sem ele fico perdido.

E sim, somos assim.
Nosso amor demanda conflito; vivo de experiência e desinteresse, me ajude com condescendência. É, sempre rotos e distintos.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O sono e a cena- Rolando Vezzoni


Ele, como algumas pessoas, chegou a um momento em sua vida em que percebeu como ela segue inevitavelmente para uma infelicidade moderada e suportável, então, tão logo, desenvolvera a pretensa capacidade de esquecimento e inércia.
Era de tarde e estava sol, andava na rua e escondido em seus pensamentos momentaneamente irrelevantes, logo acordou do transe, e passou á análise minuciosa do interessantíssimo desenho formado pela chuva a pouco cessada no asfalto escuro.
O sol batia de escanteio e tornava as pequenas lagoas manchas reluzentes e irregulares envoltas de um vapor amarelado que chegava á uns dois palmos de altura, o que era suficiente para encenar o desaparecimento de parte da perna de qualquer pedestre que ficasse num ângulo interessante. Mentalizou como ficaria alguém andando naquela posição especifica, imaginava que iria compor uma imagem interessante e admirável.
"bem que podia ter alguém ali, seria absurdo, cinematográfico" sorriu por alguns segundos em seu 'nano delírio'... "na vida faltam bons personagens".
Se sentiu cansado e desistiu da ideia, sentou na guia e perdeu o olhar naquele incompleto momento.
-Ei! você!- nasce uma voz feminina, tão agradável quanto inquisitiva, de trás- Você está na frente do cenário ô cabeção!
Se inclinou preguiçosamente e olhou a fonte de balburdia de cabeça para baixo:
-É sério isso?
Rindo, ela responde:
-Eu tô fazendo um fotografia mental aqui, não quero lembrar disso com um panguão sentado na frente!
Tentou elaborar uma resposta inteligente, mas encontrou certa dificuldade por estar em baixo, numa posição em que lhe era possível uma análise sistemática e compenetrada da calcinha de sua bela e irritante nova companhia, era de fundo branco com bolinhas de diversas cores. "colorida", inferiu.
-...
-E então?- já menos entusiasmada, mas ainda jocosa - vai ficar olhando pra baixo do meu vestido, ou vai me responder?- disse sentando de forma que impossibilitou a continuidade do estudo que ele estava fazendo.
Mudando posição para facilitar o diálogo, sem deixar de "atrapalhá-la" comenta:
-Estranho, acabei de me incomodar com o fato de não ter ninguém ali, não confio muito no seu gosto pras coisas- tentando ser irônico, mas com pouca eficiência.
-Nem vem com essa, uma personagem demanda muitos quadros, vai ver você simplesmente precisa de alguém na sua “idealização de paisagem”, por carência sepá... bom, de qualquer forma, vai me dar o prazer de sua ausência?
-Nhé... to sossegado.- emenda se espreguiçando.
-larga de ser infantil!
-...- se calou levantando uma das sobrancelhas interrogativamente.
Se olharam sérios por alguns segundos, e em seguida deram breves gargalhadas, ela parou num sorriso tímido, mas estupendo, e olhou timidamente para o chão, ele bocejou e coçou a cabeça com sono, e depois voltou a contemplá-la.
-No que você tá pensando agora?
Até tentou, mas já era tarde demais para ele lembrar, voltara a seu olhar desconexo que manda os pensamentos para outra dimensão, quando retornou a vida, já nem lembrava da pergunta, tampouco do que estava pensando, ou se estava pensando.
-Num mundo sem protagonistas, olhemos para os bons coadjuvantes... sepá que eu tava pensando nas cores que vi agora pouco- disse meio apático, meio jovial.
-Minha calcinha é linda... e onde você quer chegar com isso?
-Hum... Acho que raramente quero chegar a algum lugar - disse em tom sóbrio, em seguida, abriu um sorriso simpático de lado e emendou-Té mais!
Levantou e foi embora sem olhar para trás, com bolas coloridas flutuando á sua volta.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

carta á... - Rolando Vezzoni

Não há como pensar forma mais eficiente de correr uma carta que não será lida, do que um versar dolorido, e sem remetente, um poema de máximas e aforismos.

A manhã já é passado, e vou-me empacotando... tenho de ir.
Prometo que não guardarei razões, apenas a convicção.
Descartei já as culpas simuladas,
junto com os conflitos e torturas.
Lembrarei de bons momentos, e com eles hei de rir.

Pouco importa o pouco importante,
e sei por já ter sido o bastante.
Os traumas eu já tenho... encontrar as frustrações é o intuito.
tenho de ir, a vida figurou-se assim: amo-te muito, odeio-te muito.

A complicada e intensa convivência, é deveras complicada e intensa...
Por isso me afasto desse berço teatral,
para que o meu passado de amor e raiva propensa,
o seja, mas que não vire uma guilhotina umbilical.

Um adeus simbólico nunca é um nunca mais,
mas ainda assim, até nunca mais...
pois...
minha latência me espera com um mundo, e eu quero vê-lo.

entenda, enfim.
A distância provem, não de culpa, mas de ser, e havemos de ser, rotos e distintos.

domingo, 25 de março de 2012

Inferindo- Rolando Vezzoni

Vejo-me impedido por uma barreira.

Parto da pergunta: qual que é?
Medo é demasiado arbitrário,
não quero clichê, muito pelo contrário...
Indago novamente: será que é?

Bom, eu sei que falta ímpeto.
Isso falta, mas não sera esse o muro em si?
Estranho isso, eu já transpassei esse teto...
Então pergunto: se já subi, porque desci?

Reelaboro: se vim e vi, porque perdi?
Lembro que já falei, mas ninguém ouviu...
É isso! Desci por que recebi um "não entendi"!
Ah! concluído: Bloqueei, porque ninguém entendeu, e ninguém viu.

sexta-feira, 16 de março de 2012

toda náusea será castigada- Bruno Santana

Todos os caras que vão ficar ricos crescem estranhos;
de barba mal feita ou muito bem feita;
com cabelos desgrenhados ou perfeitamente arrumados, mas
invariavelmente tratam muito bem das unhas.

Todas as garotas que serão felizes crescem sem muitas esperanças,
e não beijam os caras legais das festas e
não ficam bêbadas e
lavam a louça do almoço.

Foi uma garota quem me disse isso
em uma dessas festas de pessoas tristes
em um desses porres sem futuro
em um sábado sem pretensão.

Ela chorava e borrava a maquiagem
e era linda como o demônio;
o anjo da luz descido na terra,

ela soluçava e gargalhava
entre o rímel e o batom e sua jaqueta de couro

Ela dizia que não seria feliz
amaldiçoava seu destino
e todos os lapsos de felicidade instantânea.

Culpava Dylan e Godard e Bardot e todos os existencialistas
e todos aqueles que um dia escreveram
ou cantaram
e trouxeram ao mundo a maldição.
A maldição da juventude:



ser feliz antes do tempo
queimar antes de iluminar.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Réquiem da pornochanchada- Rolando Vezzoni

O povo leva a sério toda piada
Miou da ginga e da gargalhada.
Brinca de sério e competente,
me lembra é velho doente.

Parece até que linha reta,
é virtude da mais correta,
que os passos ébrios da molecada,
viraram molequice e não valem nada.

Moralismo tosco e desenfreado,
é catalizado na internet...
Resultado?
Pentelhação deliberada, de ateu, evangélico e patricete.

Engraçado que no país da pornochanchada,
esqueceram da grande sacada.
Que cagar opinião parece que valer muito,
mas no fim não vale nada.