artigo quinto, parágrafo IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Resposta á carta- Rolando Vezzoni
Não há como pensar forma melhor de responder uma carta sem um remetente, mas dois, e nenhum, do que um versar confuso e arrematado, um poema de anexos e conclusões.
O tempo corre, mas hei de tardar minha partida.
Fugir sem resoluções é arbitrário e covarde.
Sou demasiado travado, evito narrar-te o correr da vida.
Querida, sinto por dificultar, mas só assim agirei.
Estoico, estranho e estúpido, assim de verdade.
Despreocupado, sim, mas não indiferente.
Não se engane, procuro as mesmas coisas, mas mudo meu procurar.
Vou sempre te amar do meu jeito, eventual e distante,
é a moderada oscilação entre a sublimação e o tentar.
Dentre todos os muitos intempéries vitais,
clamo, agora, apenas por seu não agir, despretensiosamente.
Não sofra, mas, sou um melancólico sorridente,
um apático, muito apegado á meu direito de ser infeliz.
Não consigo te proteger, e não quero ser protegido,
se sou assim, não se martirize, pois amo esse sentimento...
...pela simples razão de sê-lo, e não quero tratamento.
Aí o paradoxo, meu problema é meu vetor, e sem ele fico perdido.
E sim, somos assim.
Nosso amor demanda conflito; vivo de experiência e desinteresse, me ajude com condescendência. É, sempre rotos e distintos.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
O sono e a cena- Rolando Vezzoni
Ele,
como algumas pessoas, chegou a um momento em sua vida em que percebeu
como ela segue inevitavelmente para uma infelicidade moderada e
suportável, então, tão logo, desenvolvera a pretensa capacidade de
esquecimento e inércia.
Era de tarde e estava sol, andava na rua e escondido em seus pensamentos momentaneamente irrelevantes, logo acordou do transe, e passou á análise minuciosa do interessantíssimo desenho formado pela chuva a pouco cessada no asfalto escuro.
O sol batia de escanteio e tornava as pequenas lagoas manchas reluzentes e irregulares envoltas de um vapor amarelado que chegava á uns dois palmos de altura, o que era suficiente para encenar o desaparecimento de parte da perna de qualquer pedestre que ficasse num ângulo interessante. Mentalizou como ficaria alguém andando naquela posição especifica, imaginava que iria compor uma imagem interessante e admirável.
"bem que podia ter alguém ali, seria absurdo, cinematográfico" sorriu por alguns segundos em seu 'nano delírio'... "na vida faltam bons personagens".
Se sentiu cansado e desistiu da ideia, sentou na guia e perdeu o olhar naquele incompleto momento.
-Ei! você!- nasce uma voz feminina, tão agradável quanto inquisitiva, de trás- Você está na frente do cenário ô cabeção!
Se inclinou preguiçosamente e olhou a fonte de balburdia de cabeça para baixo:
-É sério isso?
Rindo, ela responde:
-Eu tô fazendo um fotografia mental aqui, não quero lembrar disso com um panguão sentado na frente!
Tentou elaborar uma resposta inteligente, mas encontrou certa dificuldade por estar em baixo, numa posição em que lhe era possível uma análise sistemática e compenetrada da calcinha de sua bela e irritante nova companhia, era de fundo branco com bolinhas de diversas cores. "colorida", inferiu.
-...
-E então?- já menos entusiasmada, mas ainda jocosa - vai ficar olhando pra baixo do meu vestido, ou vai me responder?- disse sentando de forma que impossibilitou a continuidade do estudo que ele estava fazendo.
Mudando posição para facilitar o diálogo, sem deixar de "atrapalhá-la" comenta:
-Estranho, acabei de me incomodar com o fato de não ter ninguém ali, não confio muito no seu gosto pras coisas- tentando ser irônico, mas com pouca eficiência.
-Nem vem com essa, uma personagem demanda muitos quadros, vai ver você simplesmente precisa de alguém na sua “idealização de paisagem”, por carência sepá... bom, de qualquer forma, vai me dar o prazer de sua ausência?
-Nhé... to sossegado.- emenda se espreguiçando.
-larga de ser infantil!
-...- se calou levantando uma das sobrancelhas interrogativamente.
Se olharam sérios por alguns segundos, e em seguida deram breves gargalhadas, ela parou num sorriso tímido, mas estupendo, e olhou timidamente para o chão, ele bocejou e coçou a cabeça com sono, e depois voltou a contemplá-la.
-No que você tá pensando agora?
Até tentou, mas já era tarde demais para ele lembrar, voltara a seu olhar desconexo que manda os pensamentos para outra dimensão, quando retornou a vida, já nem lembrava da pergunta, tampouco do que estava pensando, ou se estava pensando.
-Num mundo sem protagonistas, olhemos para os bons coadjuvantes... sepá que eu tava pensando nas cores que vi agora pouco- disse meio apático, meio jovial.
-Minha calcinha é linda... e onde você quer chegar com isso?
-Hum... Acho que raramente quero chegar a algum lugar - disse em tom sóbrio, em seguida, abriu um sorriso simpático de lado e emendou-Té mais!
Levantou e foi embora sem olhar para trás, com bolas coloridas flutuando á sua volta.
Era de tarde e estava sol, andava na rua e escondido em seus pensamentos momentaneamente irrelevantes, logo acordou do transe, e passou á análise minuciosa do interessantíssimo desenho formado pela chuva a pouco cessada no asfalto escuro.
O sol batia de escanteio e tornava as pequenas lagoas manchas reluzentes e irregulares envoltas de um vapor amarelado que chegava á uns dois palmos de altura, o que era suficiente para encenar o desaparecimento de parte da perna de qualquer pedestre que ficasse num ângulo interessante. Mentalizou como ficaria alguém andando naquela posição especifica, imaginava que iria compor uma imagem interessante e admirável.
"bem que podia ter alguém ali, seria absurdo, cinematográfico" sorriu por alguns segundos em seu 'nano delírio'... "na vida faltam bons personagens".
Se sentiu cansado e desistiu da ideia, sentou na guia e perdeu o olhar naquele incompleto momento.
-Ei! você!- nasce uma voz feminina, tão agradável quanto inquisitiva, de trás- Você está na frente do cenário ô cabeção!
Se inclinou preguiçosamente e olhou a fonte de balburdia de cabeça para baixo:
-É sério isso?
Rindo, ela responde:
-Eu tô fazendo um fotografia mental aqui, não quero lembrar disso com um panguão sentado na frente!
Tentou elaborar uma resposta inteligente, mas encontrou certa dificuldade por estar em baixo, numa posição em que lhe era possível uma análise sistemática e compenetrada da calcinha de sua bela e irritante nova companhia, era de fundo branco com bolinhas de diversas cores. "colorida", inferiu.
-...
-E então?- já menos entusiasmada, mas ainda jocosa - vai ficar olhando pra baixo do meu vestido, ou vai me responder?- disse sentando de forma que impossibilitou a continuidade do estudo que ele estava fazendo.
Mudando posição para facilitar o diálogo, sem deixar de "atrapalhá-la" comenta:
-Estranho, acabei de me incomodar com o fato de não ter ninguém ali, não confio muito no seu gosto pras coisas- tentando ser irônico, mas com pouca eficiência.
-Nem vem com essa, uma personagem demanda muitos quadros, vai ver você simplesmente precisa de alguém na sua “idealização de paisagem”, por carência sepá... bom, de qualquer forma, vai me dar o prazer de sua ausência?
-Nhé... to sossegado.- emenda se espreguiçando.
-larga de ser infantil!
-...- se calou levantando uma das sobrancelhas interrogativamente.
Se olharam sérios por alguns segundos, e em seguida deram breves gargalhadas, ela parou num sorriso tímido, mas estupendo, e olhou timidamente para o chão, ele bocejou e coçou a cabeça com sono, e depois voltou a contemplá-la.
-No que você tá pensando agora?
Até tentou, mas já era tarde demais para ele lembrar, voltara a seu olhar desconexo que manda os pensamentos para outra dimensão, quando retornou a vida, já nem lembrava da pergunta, tampouco do que estava pensando, ou se estava pensando.
-Num mundo sem protagonistas, olhemos para os bons coadjuvantes... sepá que eu tava pensando nas cores que vi agora pouco- disse meio apático, meio jovial.
-Minha calcinha é linda... e onde você quer chegar com isso?
-Hum... Acho que raramente quero chegar a algum lugar - disse em tom sóbrio, em seguida, abriu um sorriso simpático de lado e emendou-Té mais!
Levantou e foi embora sem olhar para trás, com bolas coloridas flutuando á sua volta.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
carta á... - Rolando Vezzoni
Não há como pensar forma mais eficiente de correr uma carta que não será lida, do que um versar dolorido, e sem remetente, um poema de máximas e aforismos.
A manhã já é passado, e vou-me empacotando... tenho de ir.
Prometo que não guardarei razões, apenas a convicção.
Descartei já as culpas simuladas,
junto com os conflitos e torturas.
Lembrarei de bons momentos, e com eles hei de rir.
Pouco importa o pouco importante,
e sei por já ter sido o bastante.
Os traumas eu já tenho... encontrar as frustrações é o intuito.
tenho de ir, a vida figurou-se assim: amo-te muito, odeio-te muito.
A complicada e intensa convivência, é deveras complicada e intensa...
Por isso me afasto desse berço teatral,
para que o meu passado de amor e raiva propensa,
o seja, mas que não vire uma guilhotina umbilical.
Um adeus simbólico nunca é um nunca mais,
mas ainda assim, até nunca mais...
pois...
minha latência me espera com um mundo, e eu quero vê-lo.
entenda, enfim.
A distância provem, não de culpa, mas de ser, e havemos de ser, rotos e distintos.
A manhã já é passado, e vou-me empacotando... tenho de ir.
Prometo que não guardarei razões, apenas a convicção.
Descartei já as culpas simuladas,
junto com os conflitos e torturas.
Lembrarei de bons momentos, e com eles hei de rir.
Pouco importa o pouco importante,
e sei por já ter sido o bastante.
Os traumas eu já tenho... encontrar as frustrações é o intuito.
tenho de ir, a vida figurou-se assim: amo-te muito, odeio-te muito.
A complicada e intensa convivência, é deveras complicada e intensa...
Por isso me afasto desse berço teatral,
para que o meu passado de amor e raiva propensa,
o seja, mas que não vire uma guilhotina umbilical.
Um adeus simbólico nunca é um nunca mais,
mas ainda assim, até nunca mais...
pois...
minha latência me espera com um mundo, e eu quero vê-lo.
entenda, enfim.
A distância provem, não de culpa, mas de ser, e havemos de ser, rotos e distintos.
domingo, 25 de março de 2012
Inferindo- Rolando Vezzoni
Vejo-me impedido por uma barreira.
Parto da pergunta: qual que é?
Medo é demasiado arbitrário,
não quero clichê, muito pelo contrário...
Indago novamente: será que é?
Bom, eu sei que falta ímpeto.
Isso falta, mas não sera esse o muro em si?
Estranho isso, eu já transpassei esse teto...
Então pergunto: se já subi, porque desci?
Reelaboro: se vim e vi, porque perdi?
Lembro que já falei, mas ninguém ouviu...
É isso! Desci por que recebi um "não entendi"!
Ah! concluído: Bloqueei, porque ninguém entendeu, e ninguém viu.
Parto da pergunta: qual que é?
Medo é demasiado arbitrário,
não quero clichê, muito pelo contrário...
Indago novamente: será que é?
Bom, eu sei que falta ímpeto.
Isso falta, mas não sera esse o muro em si?
Estranho isso, eu já transpassei esse teto...
Então pergunto: se já subi, porque desci?
Reelaboro: se vim e vi, porque perdi?
Lembro que já falei, mas ninguém ouviu...
É isso! Desci por que recebi um "não entendi"!
Ah! concluído: Bloqueei, porque ninguém entendeu, e ninguém viu.
sexta-feira, 16 de março de 2012
toda náusea será castigada- Bruno Santana
Todos os caras que vão ficar ricos crescem estranhos;
de barba mal feita ou muito bem feita;
com cabelos desgrenhados ou perfeitamente arrumados, mas
invariavelmente tratam muito bem das unhas.
Todas as garotas que serão felizes crescem sem muitas esperanças,
e não beijam os caras legais das festas e
não ficam bêbadas e
lavam a louça do almoço.
Foi uma garota quem me disse isso
em uma dessas festas de pessoas tristes
em um desses porres sem futuro
em um sábado sem pretensão.
Ela chorava e borrava a maquiagem
e era linda como o demônio;
o anjo da luz descido na terra,
ela soluçava e gargalhava
entre o rímel e o batom e sua jaqueta de couro
Ela dizia que não seria feliz
amaldiçoava seu destino
e todos os lapsos de felicidade instantânea.
Culpava Dylan e Godard e Bardot e todos os existencialistas
e todos aqueles que um dia escreveram
ou cantaram
e trouxeram ao mundo a maldição.
A maldição da juventude:
ser feliz antes do tempo
queimar antes de iluminar.
de barba mal feita ou muito bem feita;
com cabelos desgrenhados ou perfeitamente arrumados, mas
invariavelmente tratam muito bem das unhas.
Todas as garotas que serão felizes crescem sem muitas esperanças,
e não beijam os caras legais das festas e
não ficam bêbadas e
lavam a louça do almoço.
Foi uma garota quem me disse isso
em uma dessas festas de pessoas tristes
em um desses porres sem futuro
em um sábado sem pretensão.
Ela chorava e borrava a maquiagem
e era linda como o demônio;
o anjo da luz descido na terra,
ela soluçava e gargalhava
entre o rímel e o batom e sua jaqueta de couro
Ela dizia que não seria feliz
amaldiçoava seu destino
e todos os lapsos de felicidade instantânea.
Culpava Dylan e Godard e Bardot e todos os existencialistas
e todos aqueles que um dia escreveram
ou cantaram
e trouxeram ao mundo a maldição.
A maldição da juventude:
ser feliz antes do tempo
queimar antes de iluminar.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Réquiem da pornochanchada- Rolando Vezzoni
O povo leva a sério toda piada
Miou da ginga e da gargalhada.
Brinca de sério e competente,
me lembra é velho doente.
Parece até que linha reta,
é virtude da mais correta,
que os passos ébrios da molecada,
viraram molequice e não valem nada.
Moralismo tosco e desenfreado,
é catalizado na internet...
Resultado?
Pentelhação deliberada, de ateu, evangélico e patricete.
Engraçado que no país da pornochanchada,
esqueceram da grande sacada.
Que cagar opinião parece que valer muito,
mas no fim não vale nada.
Miou da ginga e da gargalhada.
Brinca de sério e competente,
me lembra é velho doente.
Parece até que linha reta,
é virtude da mais correta,
que os passos ébrios da molecada,
viraram molequice e não valem nada.
Moralismo tosco e desenfreado,
é catalizado na internet...
Resultado?
Pentelhação deliberada, de ateu, evangélico e patricete.
Engraçado que no país da pornochanchada,
esqueceram da grande sacada.
Que cagar opinião parece que valer muito,
mas no fim não vale nada.
domingo, 4 de março de 2012
O demente- Rolando Vezzoni
O
sujeito normal era normal. Não muito mais poderia ser dito á
princípio... Solteiro? Sim, mas não carente... Ébrio?
Eventualmente, mas nada incomum... Trabalho ou estudo? Sim, nada
muito vibrante.
“Já fui demente...
Não convivi com meus parentes após a concussão por não ter coragem de encontrar minhas verdades em casa.
Com minha lesão perdi a capacidade de controlar as minhas impressões do mundo, não conseguia mais mentir, mas, falar a verdade para os outros foi só meu primeiro sintoma, perdi também a minha capacidade de mentir para mim mesmo, e uma vez assim, nunca mais poderia reaprende-la.
Sou um cara normal, normal demais, acho que sou assim pois eu sempre tive medo dos outros, não do que me diriam, mas dos conflitos... com minha sequela, percebi que não presto atenção em coisas “boas” nos outros, vejo as diferenças (principalmente físicas) “negativas”.
Porque? Não tenho certeza, mas invejo quem não tem a escolha de ser comum, ou que não tem essa tendência.
Vivi minha vida sem ser ninguém, talvez sempre tenha querido ser alguém, mas nunca tenha tido coragem para isso... me coloquei numa camisa de força, quem é o homem que odeia os diferenciais que almeja, e que se prende a uma existência insossa, que odeia?
Nunca fui forte para escolher para onde ia, sou duas metades assustadas e recalcadas que não consigo juntar.
Achava que a mentira servia para facilitar as nossas relações, mas no final, creio que me perdi na mentira em que vivi, e assim viveria muito tempo, como muitos. Mas meu acidente me pois em xeque.
Ou, melhor, xeque-mate.”
Andava para sua casa em um dia normal, estava
pensando em algo que não era importante, só queria chegar em casa e
comer um sanduíche.
Durante a elaboração mental meticulosa do seu sanduíche que fazia em sua epopeia até a esquina, aconteceu algo que se não houvesse acontecido, não o faria merecedor de um conto a seu respeito. O que? Bom, ele escorregou numa bela peça de coco canino, o que já é interessante por ser cômico, mas além disso bateu a “cabecinha” bem forte na guia.
Acordou num quarto branco, inferiu que era um hospital, pois lembrava da merda e da queda. Olhou a sua volta, estava com dor de cabeça e desorganizado, provavelmente por não ter comido o sanduíche que tanto pretendia, ou talvez tivesse algo a ver com a pancada, não sabia dizer.
-Ele acordou! Ele acordou!- gritou sua “mamãe”.
Entrou todo o grupo de lagartos preocupadíssimos com sua saúde, e uma enfermeira com um decote protuberante:
-como você tá?
-cabeça dura a sua em rapaz? Hahahah!
-o que aconteceu? Contaí man!
Sua cabeça latejava ao escutar o burburinho, pra cada comentário uma pulsada.
-Huum, huuuuuum!...-limpou a garganta com o intuito de abrir uma brecha, e esperou o silêncio se estabelecer, tomou ar para tranquilizar aqueles que demandavam.- ... nossa. Que puta enfermeira gostosa!
Os olhares foram de encontro à enfermeira e ricochetearam de volta, mas antes que qualquer um pudesse recriminá-lo pelo mal elaborado elogio, a própria gostosa cortou o silêncio:
-ahm...bom, obrigado, hahaha...- abriu um sorriso calmo e prosseguiu.- Não fiquem ofendidos, o doutor me avisou que algo assim poderia acontecer, ele está chegando e explicará tudo.
O doutor chegou e explicou todo o charme do acidente : a área lesada do encéfalo era “responsável” pela censura (o tal do “desconfiômetro” que as pedagogas de quinta tanto falam nas escolas), é algo assim, nós pensamos coisas ao longo do nosso dia, e não dizemos algumas por sabermos que fogem ao comum em termos de aceitável, ou seja, vemos uma funcionária de hospital com atributos físicos interessantes, mas não comentamos isso... Porém no caso, nosso herói perdeu completamente essa capacidade, como um sujeito muito alcoolizado pode perder parcialmente durante o porre.
-pô, que merda isso! Agora eu to completamente fudido, tipo, eu não posso sair de casa, vou acabar apanhando!
-não é tão raro quanto parece, e depois de alguns anos o cérebro geralmente usa outra área para compensar, e você volta ao seu ao normal.
-e o que eu faço até lá?! Fala aí seu careca! Ando com uma placa pendurada no meu pescoço escrito “demente”?!
-ãaaa...- o médico fez uma pausa debiloide para pensar.-Eu não sou careca, só tenho cabelo ralo!-sorriu satisfeito com sua brilhante colocação- Bom... E você teve sorte de não ter nenhuma outra disfunção, você poderia estar babando com o rosto parcialmente paralisado, então tente encarar isso da melhor maneira possível.
Passaram-se alguns dias antes de sair da caverna, saiu pois percebeu que teria que aprender a se virar e retomar sua vida, suas sublimes atividades cotidianas.
Qual o melhor lugar para recomeçar a rotina, o local que mais drena sua energia enquanto lhe fornece colegas igualmente miseráveis com os quais se é possível estabelecer relações humanas? Logicamente, o trampo.
Vestiu roupas discretas e foi à sua primeira experiência com um otimismo razoável e tencionando ficar o mais transparente possível, ficaria quieto e faria as macaquices que lhe fossem designadas, o que poderia dar errado?
Chegou na entrada, respirou fundo e entrou.
-SURPRESA! ESTAMOS MUITO FELIZES DE VOCÊ ESTAR DE VOLTA!
Sentiu sua pálpebra direita se contrair e seu esfíncter dar um nó, percebeu tarde demais a situação em que se metera, a saia justa, e os conflitos que poderiam sair dali, já que havia num escritório um homem que não mente, provido de todo um material de anos de compostura acumulados e prontos para serem lançados impiedosamente.
Mas o que seguiu foi muito inusitado, ele era um sujeito normal, mas não um sujeito burro, assim sendo, não se deixaria simplesmente conversar sabendo que muito provavelmente comentaria a respeito da enorme pinta no rosto do chefe ou quão ridícula era a gravata do mesmo (o que torna o conto bem menos engraçado).
Primeiro começou a assoviar.
As indagações se seguiram, “o que há?”, “você não consegue..?”, e todas as perguntas estúpidas possíveis, realmente não tinha jeito.
Continuou assoviando e procurando alguém com quem conseguisse conversar, alguém que suportasse mais tranquilamente a esse tipo de situação, que ele fosse capaz de olhar. Afobado e se esquivando do espelho que se configurava nos focinhos alheios, aos poucos percebendo como sua nova sinceridade era bizarra. Seu foco caminhava para o desagradável, uma lente filtra tudo àquilo não escroto, um aleijado, que abiu um rombo capaz de liberar toda a amargura de uma vida inexpressiva.
Em seu desespero, percebendo quão mal sucedido foi seu contato com o mundo, preso naquele labirinto, perdido nos corredores em loop, foi procurar a saída.
Acordou sentado na guia recém pintada, onde havia estourado os miolos algum tempo atrás.
Era a guia mais branca, inconsciente de quão substanciosa foi sua participação nessa história toda.
Riu num tom histérico...
Saiu de casa, com uma placa pendurada em seu pescoço, nela pintada: “demente”, foi a despedida de nosso herói, pois aqueles que o conheciam, não o viram mais.
Transeuntes relataram que o tão caricato protagonista foi visto em diferentes lugares por algumas semanas vagando incógnito, vivendo como um sem teto com o notório hábito de ofender os pedestres.
Foi encontrado morto por espancamento (nada surpreendente), e só identificaram o corpo pois havia uma carta nas roupas que vestia, mencionava a família com nomes e endereço, segue a carta:
Durante a elaboração mental meticulosa do seu sanduíche que fazia em sua epopeia até a esquina, aconteceu algo que se não houvesse acontecido, não o faria merecedor de um conto a seu respeito. O que? Bom, ele escorregou numa bela peça de coco canino, o que já é interessante por ser cômico, mas além disso bateu a “cabecinha” bem forte na guia.
Acordou num quarto branco, inferiu que era um hospital, pois lembrava da merda e da queda. Olhou a sua volta, estava com dor de cabeça e desorganizado, provavelmente por não ter comido o sanduíche que tanto pretendia, ou talvez tivesse algo a ver com a pancada, não sabia dizer.
-Ele acordou! Ele acordou!- gritou sua “mamãe”.
Entrou todo o grupo de lagartos preocupadíssimos com sua saúde, e uma enfermeira com um decote protuberante:
-como você tá?
-cabeça dura a sua em rapaz? Hahahah!
-o que aconteceu? Contaí man!
Sua cabeça latejava ao escutar o burburinho, pra cada comentário uma pulsada.
-Huum, huuuuuum!...-limpou a garganta com o intuito de abrir uma brecha, e esperou o silêncio se estabelecer, tomou ar para tranquilizar aqueles que demandavam.- ... nossa. Que puta enfermeira gostosa!
Os olhares foram de encontro à enfermeira e ricochetearam de volta, mas antes que qualquer um pudesse recriminá-lo pelo mal elaborado elogio, a própria gostosa cortou o silêncio:
-ahm...bom, obrigado, hahaha...- abriu um sorriso calmo e prosseguiu.- Não fiquem ofendidos, o doutor me avisou que algo assim poderia acontecer, ele está chegando e explicará tudo.
O doutor chegou e explicou todo o charme do acidente : a área lesada do encéfalo era “responsável” pela censura (o tal do “desconfiômetro” que as pedagogas de quinta tanto falam nas escolas), é algo assim, nós pensamos coisas ao longo do nosso dia, e não dizemos algumas por sabermos que fogem ao comum em termos de aceitável, ou seja, vemos uma funcionária de hospital com atributos físicos interessantes, mas não comentamos isso... Porém no caso, nosso herói perdeu completamente essa capacidade, como um sujeito muito alcoolizado pode perder parcialmente durante o porre.
-pô, que merda isso! Agora eu to completamente fudido, tipo, eu não posso sair de casa, vou acabar apanhando!
-não é tão raro quanto parece, e depois de alguns anos o cérebro geralmente usa outra área para compensar, e você volta ao seu ao normal.
-e o que eu faço até lá?! Fala aí seu careca! Ando com uma placa pendurada no meu pescoço escrito “demente”?!
-ãaaa...- o médico fez uma pausa debiloide para pensar.-Eu não sou careca, só tenho cabelo ralo!-sorriu satisfeito com sua brilhante colocação- Bom... E você teve sorte de não ter nenhuma outra disfunção, você poderia estar babando com o rosto parcialmente paralisado, então tente encarar isso da melhor maneira possível.
Passaram-se alguns dias antes de sair da caverna, saiu pois percebeu que teria que aprender a se virar e retomar sua vida, suas sublimes atividades cotidianas.
Qual o melhor lugar para recomeçar a rotina, o local que mais drena sua energia enquanto lhe fornece colegas igualmente miseráveis com os quais se é possível estabelecer relações humanas? Logicamente, o trampo.
Vestiu roupas discretas e foi à sua primeira experiência com um otimismo razoável e tencionando ficar o mais transparente possível, ficaria quieto e faria as macaquices que lhe fossem designadas, o que poderia dar errado?
Chegou na entrada, respirou fundo e entrou.
-SURPRESA! ESTAMOS MUITO FELIZES DE VOCÊ ESTAR DE VOLTA!
Sentiu sua pálpebra direita se contrair e seu esfíncter dar um nó, percebeu tarde demais a situação em que se metera, a saia justa, e os conflitos que poderiam sair dali, já que havia num escritório um homem que não mente, provido de todo um material de anos de compostura acumulados e prontos para serem lançados impiedosamente.
Mas o que seguiu foi muito inusitado, ele era um sujeito normal, mas não um sujeito burro, assim sendo, não se deixaria simplesmente conversar sabendo que muito provavelmente comentaria a respeito da enorme pinta no rosto do chefe ou quão ridícula era a gravata do mesmo (o que torna o conto bem menos engraçado).
Primeiro começou a assoviar.
As indagações se seguiram, “o que há?”, “você não consegue..?”, e todas as perguntas estúpidas possíveis, realmente não tinha jeito.
Continuou assoviando e procurando alguém com quem conseguisse conversar, alguém que suportasse mais tranquilamente a esse tipo de situação, que ele fosse capaz de olhar. Afobado e se esquivando do espelho que se configurava nos focinhos alheios, aos poucos percebendo como sua nova sinceridade era bizarra. Seu foco caminhava para o desagradável, uma lente filtra tudo àquilo não escroto, um aleijado, que abiu um rombo capaz de liberar toda a amargura de uma vida inexpressiva.
Em seu desespero, percebendo quão mal sucedido foi seu contato com o mundo, preso naquele labirinto, perdido nos corredores em loop, foi procurar a saída.
Acordou sentado na guia recém pintada, onde havia estourado os miolos algum tempo atrás.
Era a guia mais branca, inconsciente de quão substanciosa foi sua participação nessa história toda.
Riu num tom histérico...
Saiu de casa, com uma placa pendurada em seu pescoço, nela pintada: “demente”, foi a despedida de nosso herói, pois aqueles que o conheciam, não o viram mais.
Transeuntes relataram que o tão caricato protagonista foi visto em diferentes lugares por algumas semanas vagando incógnito, vivendo como um sem teto com o notório hábito de ofender os pedestres.
Foi encontrado morto por espancamento (nada surpreendente), e só identificaram o corpo pois havia uma carta nas roupas que vestia, mencionava a família com nomes e endereço, segue a carta:
“Já fui demente...
Não convivi com meus parentes após a concussão por não ter coragem de encontrar minhas verdades em casa.
Com minha lesão perdi a capacidade de controlar as minhas impressões do mundo, não conseguia mais mentir, mas, falar a verdade para os outros foi só meu primeiro sintoma, perdi também a minha capacidade de mentir para mim mesmo, e uma vez assim, nunca mais poderia reaprende-la.
Sou um cara normal, normal demais, acho que sou assim pois eu sempre tive medo dos outros, não do que me diriam, mas dos conflitos... com minha sequela, percebi que não presto atenção em coisas “boas” nos outros, vejo as diferenças (principalmente físicas) “negativas”.
Porque? Não tenho certeza, mas invejo quem não tem a escolha de ser comum, ou que não tem essa tendência.
Vivi minha vida sem ser ninguém, talvez sempre tenha querido ser alguém, mas nunca tenha tido coragem para isso... me coloquei numa camisa de força, quem é o homem que odeia os diferenciais que almeja, e que se prende a uma existência insossa, que odeia?
Nunca fui forte para escolher para onde ia, sou duas metades assustadas e recalcadas que não consigo juntar.
Achava que a mentira servia para facilitar as nossas relações, mas no final, creio que me perdi na mentira em que vivi, e assim viveria muito tempo, como muitos. Mas meu acidente me pois em xeque.
Ou, melhor, xeque-mate.”
Clamor solitário- Bruno Santana
Sem que a luz atrapalhe, escrevo.
Linhas do que vi, não vi
Vivi e senti,
Mas, é claro, isto não é poesia.
Sem que o caos da cidade perturbe
Mergulho na penumbra de homem só
Orgulhoso, inteligente e sisudo
Mas, é claro, isto não é atributo de poeta.
Sem que as vozes de outrem falem
A minha canta e grita
Orações, canções e hinos
Mas, é claro, isto não é uma melodia.
Sem que o dinheiro me acanhe
ou excite
Penso no que deve ser pensado
Mas, é claro, isto não é assunto.
É claro, fica claro, sempre foi claro
No escuro, sem a fluorescência
Me entorpeço de ideias sólidas
Abraçando a realidade fluida.
Nela, descubro que os melhores poemas
não foram escritos
As cores mais bonitas
são oculares
A melhor canção
Não vem do coração.
A mais rica melodia
emana dos elétrons
cátions e ânions
substâncias, orgânicas ou não.
Não, não é ciência
Não é poesia
Não é arte
É o clamor solitário,
de outra alma perdida.
Linhas do que vi, não vi
Vivi e senti,
Mas, é claro, isto não é poesia.
Sem que o caos da cidade perturbe
Mergulho na penumbra de homem só
Orgulhoso, inteligente e sisudo
Mas, é claro, isto não é atributo de poeta.
Sem que as vozes de outrem falem
A minha canta e grita
Orações, canções e hinos
Mas, é claro, isto não é uma melodia.
Sem que o dinheiro me acanhe
ou excite
Penso no que deve ser pensado
Mas, é claro, isto não é assunto.
É claro, fica claro, sempre foi claro
No escuro, sem a fluorescência
Me entorpeço de ideias sólidas
Abraçando a realidade fluida.
Nela, descubro que os melhores poemas
não foram escritos
As cores mais bonitas
são oculares
A melhor canção
Não vem do coração.
A mais rica melodia
emana dos elétrons
cátions e ânions
substâncias, orgânicas ou não.
Não, não é ciência
Não é poesia
Não é arte
É o clamor solitário,
de outra alma perdida.
domingo, 22 de janeiro de 2012
(sem título)- Rolando Vezzoni
Reavendo os cacos dos últimos ventos,
noto-me preso a um cambalear incessante.
Uma ressaca de 100 anos?
(que se não o é, ao menos parece).
Retratos de tudo que merece,
ou que foi, ainda que pouco, interessante,
dos bons e péssimos, hei de lembrar-me desses tantos.
Não creio que haja alguma cicatriz que suma,
mas tomo por certo que não há dor insuperável,
e o bem vivido na atmosfera ulula.
Cada segundo passado é o passo em si, o cambalear incessante da minha ressaca de 100 anos.
noto-me preso a um cambalear incessante.
Uma ressaca de 100 anos?
(que se não o é, ao menos parece).
Retratos de tudo que merece,
ou que foi, ainda que pouco, interessante,
dos bons e péssimos, hei de lembrar-me desses tantos.
Não creio que haja alguma cicatriz que suma,
mas tomo por certo que não há dor insuperável,
e o bem vivido na atmosfera ulula.
Cada segundo passado é o passo em si, o cambalear incessante da minha ressaca de 100 anos.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Eles?- Rolando Vezzoni
Estavam lá, ele e ela.
-Eu não sei, acho que quero alguém, ultimamente tenho me sentido deslocada, me sentindo quase nada, sabe? É como se faltasse algo, um namorado ia resolver esse tipo de coisa, estar com alguém ajuda muito tudo, o problema é que não acho um encaixe com ninguém!
-Entendo, as vezes eu acordo e não sei bem, penso que ia ser legal acordar e encontrar uma pessoa ali, uma moça com quem eu tenha vivido algo... Mas no fim não é bem assim que a banda toca.
-Hahahahaha! - riu, com seus lábios separados por dentes formando um sorriso sarcástico lindo- -Por que? “Tá” dificil arrumar companhia?
-Nem é isso, companhia se tem, não tem é alguém que te acompanhe.- fechou os olhos amigavelmente e esboçou um sorriso.
-Não faz o menor sentido isso!- disse ainda risonha.
-O negócio é assim, sempre andamos acompanhados, temos com quem conversar, se vale a pena, existimos... Algo assim, você quer algo, tipo sexo, encontra, no meu caso, uma garota que quer também, ai você sai, fala um monte de merda e tenta parecer mais interessante para se vender como um produto, daí consegue o que quer, acorda no dia seguinte, olha para a sua direita vê aquilo, vira para a sua esquerda e pensa,depois volta e observa a parceira como um objetivo que alcançou, fica feliz, aí pensa um pouco e só quer mandá-la embora dali, quer que vá embora, fica nauseado só de pensar na pessoa, quer tomar um banho e dormir, ou sei lá, pular da janela... não por questões estéticas, a questão é que não aguenta aquilo tudo.
-Por que a esquerda?
-Eu gosto de dormir na esquerda.
-Quer dizer que não curte ficar com a mesma mulher mais de uma vez?
-Claro que sim, só que quase nunca... A coisa tem que fluir, você tem que existir ali, e a pessoa tem que ser de uma forma que não te mate aos poucos, não sei explicar, é uma coisa de empatia.
-Bom, eu sou mais quieta, por ser mulher, mas eu entendo... Sei lá meu... É que tipo... Vamos dizer que quando você teve essa aversão, mas ainda tem esperança, eu simplesmente acho que é a questão de achar uma pessoa certa! Não que só tenha uma pessoa certa... Mas que tem que haver mais de uma pessoa certa.
-Justo.
-Agente tem que ter algum sentido na vida, um relacionamento torna isso mais...
-Palpável?
-É!
-Vivemos procurando sentido em tudo, mas as coisas não tem esse sentido todo, acho que um relacionamento não é o bastante para pintar um significado na existência... Mas é bom, porque quando eu estou tendo uma relação interpessoal, me lembro que eu estou ali.
-Você é engraçado, fala as coisas como se a cada momento pudesse desaparecer, como a fumaça de um cigarro, que tem que ser tragada de novo milhões de vezes sempre para estar ali... “daí eu existo”, o que isso quer dizer?
-O mais engraçado, é que eu acho que você sabe bem o que eu quero dizer... Eu sou observador, vejo você se olhando no espelho direto, mas raramente se arruma, parece que se olha para ver se é você que está lá, para se lembrar que ainda está ali...
-... - Parou e o observou com a boca entreaberta, e depois mordendo o lábio inferior, ele queria esses lábios que quando se moviam o apunhalavam o peito- Não sei que dizer... Me sinto aqui.
-Não diga nada... Quando pensarmos nisso, existiremos, essa é uma das tragadas que precisamos para continuar aqui, como se fossemos sombras numa parede impassível, e essa relação, essa conversa, fosse o corpo que projeta nossa existência nessa parede.
Ela riu, eles conversaram mais, ele foi trabalhar, ela foi para casa..
Ela olha para uma parede de seu jardim, vê sua sombra de pé, mais real que ela mesma, fica paralisada, é a primeira vez que se vê, ela está deslocada, a sombra que vê é um retrato fiel, é o espelho que a reflete, reflexão pura e sem cor, uma mancha escura e imperativa... Abre a boca e sussurra para a sombra de forma tão discreta quanto psicótica, a unica pergunta que lhe fazia sentido perguntar: “Eu estou aqui?”
-Eu não sei, acho que quero alguém, ultimamente tenho me sentido deslocada, me sentindo quase nada, sabe? É como se faltasse algo, um namorado ia resolver esse tipo de coisa, estar com alguém ajuda muito tudo, o problema é que não acho um encaixe com ninguém!
-Entendo, as vezes eu acordo e não sei bem, penso que ia ser legal acordar e encontrar uma pessoa ali, uma moça com quem eu tenha vivido algo... Mas no fim não é bem assim que a banda toca.
-Hahahahaha! - riu, com seus lábios separados por dentes formando um sorriso sarcástico lindo- -Por que? “Tá” dificil arrumar companhia?
-Nem é isso, companhia se tem, não tem é alguém que te acompanhe.- fechou os olhos amigavelmente e esboçou um sorriso.
-Não faz o menor sentido isso!- disse ainda risonha.
-O negócio é assim, sempre andamos acompanhados, temos com quem conversar, se vale a pena, existimos... Algo assim, você quer algo, tipo sexo, encontra, no meu caso, uma garota que quer também, ai você sai, fala um monte de merda e tenta parecer mais interessante para se vender como um produto, daí consegue o que quer, acorda no dia seguinte, olha para a sua direita vê aquilo, vira para a sua esquerda e pensa,depois volta e observa a parceira como um objetivo que alcançou, fica feliz, aí pensa um pouco e só quer mandá-la embora dali, quer que vá embora, fica nauseado só de pensar na pessoa, quer tomar um banho e dormir, ou sei lá, pular da janela... não por questões estéticas, a questão é que não aguenta aquilo tudo.
-Por que a esquerda?
-Eu gosto de dormir na esquerda.
-Quer dizer que não curte ficar com a mesma mulher mais de uma vez?
-Claro que sim, só que quase nunca... A coisa tem que fluir, você tem que existir ali, e a pessoa tem que ser de uma forma que não te mate aos poucos, não sei explicar, é uma coisa de empatia.
-Bom, eu sou mais quieta, por ser mulher, mas eu entendo... Sei lá meu... É que tipo... Vamos dizer que quando você teve essa aversão, mas ainda tem esperança, eu simplesmente acho que é a questão de achar uma pessoa certa! Não que só tenha uma pessoa certa... Mas que tem que haver mais de uma pessoa certa.
-Justo.
-Agente tem que ter algum sentido na vida, um relacionamento torna isso mais...
-Palpável?
-É!
-Vivemos procurando sentido em tudo, mas as coisas não tem esse sentido todo, acho que um relacionamento não é o bastante para pintar um significado na existência... Mas é bom, porque quando eu estou tendo uma relação interpessoal, me lembro que eu estou ali.
-Você é engraçado, fala as coisas como se a cada momento pudesse desaparecer, como a fumaça de um cigarro, que tem que ser tragada de novo milhões de vezes sempre para estar ali... “daí eu existo”, o que isso quer dizer?
-O mais engraçado, é que eu acho que você sabe bem o que eu quero dizer... Eu sou observador, vejo você se olhando no espelho direto, mas raramente se arruma, parece que se olha para ver se é você que está lá, para se lembrar que ainda está ali...
-... - Parou e o observou com a boca entreaberta, e depois mordendo o lábio inferior, ele queria esses lábios que quando se moviam o apunhalavam o peito- Não sei que dizer... Me sinto aqui.
-Não diga nada... Quando pensarmos nisso, existiremos, essa é uma das tragadas que precisamos para continuar aqui, como se fossemos sombras numa parede impassível, e essa relação, essa conversa, fosse o corpo que projeta nossa existência nessa parede.
Ela riu, eles conversaram mais, ele foi trabalhar, ela foi para casa..
Ela olha para uma parede de seu jardim, vê sua sombra de pé, mais real que ela mesma, fica paralisada, é a primeira vez que se vê, ela está deslocada, a sombra que vê é um retrato fiel, é o espelho que a reflete, reflexão pura e sem cor, uma mancha escura e imperativa... Abre a boca e sussurra para a sombra de forma tão discreta quanto psicótica, a unica pergunta que lhe fazia sentido perguntar: “Eu estou aqui?”
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Como ler as crianças?- Rolando Vezzoni
Viu três crianças andando juntas na rua, uma com um triciclo de plástico e feições nipônicas, e os outros eram gêmeos, todos beirando seus oito primeiros anos de vida, e brindando-os sem saber, numa tarde de ambiente agradável vestidos homogeneamente, provavelmente em razão de serem da mesma escolinha e estarem de uniforme ou algo do tipo.
“Está abafado demais para mim...” pensou observando sem ser visto por eles, depois sorriu em silêncio “Para mim, é claro, para eles, não.”.
Agora os três correm em círculos rindo alto enquanto estabelecem as regras do jogo “Eles se veem como três crianças, sem líder natural...” apertou bem os olhos e passou os dedos pelo rosto por debaixo de seus óculos desviando em seguida seu olhar para o gramado “A criança oriental é apenas outro colega do par de gêmeos loiros... o que fazem com eles para se tornarem adultos?” volta a observá-los, perdeu as instruções da brincadeira, estava perdido naquilo, parecia que os movimentos eram aleatórios e sem nenhuma espécie de sentido “ a pergunta na verdade é: Deveriam fazer isso ?”.
Sentiu-se dormente, ele não existia naquele momento, era apenas um observador daquele teatro que esboçava a próxima geração, ele, um espectro estático e sonolento “Eles não, eles são matéria a ser formada, crescerão, serão postos em situações, farão escolhas, sofrerão as consequências das escolhas tomadas, até se tornarem existências completas e abobadas em sua permanente mutação em busca de algum sentido...” perdeu-se novamente, divagava despretensiosamente “Mas, agora é hora de brincar, deixe-os estar por enquanto...Aproveita ai molecada!.”, mandou esse grito telepático para eles, mas não escutaram, seu maxilar não se movia.
Durante as brincadeiras que iam mudando permanentemente, um dos gêmeos caiu, provavelmente ralou joelho e segurava um pouco seu choro, depois chorou como se fosse sentir aquela dor para sempre, talvez estivesse certo, pois ele sabia que algo estava acontecendo, mas não sabia o que ia acontecer. Os colegas correram em direção a uma torneira de uma casa, desesperados em promover o melhor socorro, mas antes que chegassem, o colega levantou e gritou:
-Gente! “Tô” melhor! Hahaha!- caiu, se machucou e levantou em menos de dez quadros.
-Vem cá!- disseram os dois outros em uníssono.
-”Peraí”!
Foi correndo e fazendo um barulho estranho com o chinelo que batia no chão e depois em seu pé milhares de vezes.
-Olha isso! “vamo” “brinca” na torneira?
Disse um deles(gostaria de saber qual, mas já não importava) abriu a torneira timidamente e olhou o fluxo da água descendo imperativo ensopando o gramado.
E foram molhando os pés como gatos ariscos.
-Mamãe “falô” que tem câmera em todos os lugares, e que agente não pode fazer nada errado porque daí senão ela filma e conta pra eles... Ela vê tudo, que nem deus!
Desligaram a cachoeira particular que criaram e continuaram juntos, mas, desanimados e sentindo uma evidente, tão infundada e inútil culpa. Em seguida os pais os chamaram, acabou a brincadeira.
“É aí que fode tudo!” pensou chateado, virando as costas indo embora, ressentido, triste por ter visto uma épica novela que acaba de modo tenebroso, “Eles já nasceram sendo observados, ainda que não efetivamente”, “Isso é o quê? Um imperativo moral? Não, é apenas uma ferramenta. O olho da providência é apenas uma artimanha cruel da própria cultura, tanto quanto o tempo, e ambos começaram como ferramentas, mas, agora, nos perdemos o controle.”,tomou um poco de ar,“No final, soldamos nossas próprias algemas e passamos essa prisão niilista a nossos filhos.”, parou de divagar, chegou em casa, ligou a ópera pagliacci...
“Ridi, Pagliaccio,
sul tuo amore infranto. !”
“Está abafado demais para mim...” pensou observando sem ser visto por eles, depois sorriu em silêncio “Para mim, é claro, para eles, não.”.
Agora os três correm em círculos rindo alto enquanto estabelecem as regras do jogo “Eles se veem como três crianças, sem líder natural...” apertou bem os olhos e passou os dedos pelo rosto por debaixo de seus óculos desviando em seguida seu olhar para o gramado “A criança oriental é apenas outro colega do par de gêmeos loiros... o que fazem com eles para se tornarem adultos?” volta a observá-los, perdeu as instruções da brincadeira, estava perdido naquilo, parecia que os movimentos eram aleatórios e sem nenhuma espécie de sentido “ a pergunta na verdade é: Deveriam fazer isso ?”.
Sentiu-se dormente, ele não existia naquele momento, era apenas um observador daquele teatro que esboçava a próxima geração, ele, um espectro estático e sonolento “Eles não, eles são matéria a ser formada, crescerão, serão postos em situações, farão escolhas, sofrerão as consequências das escolhas tomadas, até se tornarem existências completas e abobadas em sua permanente mutação em busca de algum sentido...” perdeu-se novamente, divagava despretensiosamente “Mas, agora é hora de brincar, deixe-os estar por enquanto...Aproveita ai molecada!.”, mandou esse grito telepático para eles, mas não escutaram, seu maxilar não se movia.
Durante as brincadeiras que iam mudando permanentemente, um dos gêmeos caiu, provavelmente ralou joelho e segurava um pouco seu choro, depois chorou como se fosse sentir aquela dor para sempre, talvez estivesse certo, pois ele sabia que algo estava acontecendo, mas não sabia o que ia acontecer. Os colegas correram em direção a uma torneira de uma casa, desesperados em promover o melhor socorro, mas antes que chegassem, o colega levantou e gritou:
-Gente! “Tô” melhor! Hahaha!- caiu, se machucou e levantou em menos de dez quadros.
-Vem cá!- disseram os dois outros em uníssono.
-”Peraí”!
Foi correndo e fazendo um barulho estranho com o chinelo que batia no chão e depois em seu pé milhares de vezes.
-Olha isso! “vamo” “brinca” na torneira?
Disse um deles(gostaria de saber qual, mas já não importava) abriu a torneira timidamente e olhou o fluxo da água descendo imperativo ensopando o gramado.
E foram molhando os pés como gatos ariscos.
-Mamãe “falô” que tem câmera em todos os lugares, e que agente não pode fazer nada errado porque daí senão ela filma e conta pra eles... Ela vê tudo, que nem deus!
Desligaram a cachoeira particular que criaram e continuaram juntos, mas, desanimados e sentindo uma evidente, tão infundada e inútil culpa. Em seguida os pais os chamaram, acabou a brincadeira.
“É aí que fode tudo!” pensou chateado, virando as costas indo embora, ressentido, triste por ter visto uma épica novela que acaba de modo tenebroso, “Eles já nasceram sendo observados, ainda que não efetivamente”, “Isso é o quê? Um imperativo moral? Não, é apenas uma ferramenta. O olho da providência é apenas uma artimanha cruel da própria cultura, tanto quanto o tempo, e ambos começaram como ferramentas, mas, agora, nos perdemos o controle.”,tomou um poco de ar,“No final, soldamos nossas próprias algemas e passamos essa prisão niilista a nossos filhos.”, parou de divagar, chegou em casa, ligou a ópera pagliacci...
“Ridi, Pagliaccio,
sul tuo amore infranto. !”
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Is there no way out of the mind? -Bruno Santana
to Sylvia Plath
Suicidal writers
Writing their suicide letters
Suicidal writers
Laying in their suicidal beds
Suicidal writers
Wedding death dress
Suicidal writers
Loving their suicidal loves
Suicidal writers
filling pages
trying to empty their minds.
Each page,
one breath.
Every breat, one step closer to death.
Suicidal writers
Writing their suicide letters
Suicidal writers
Laying in their suicidal beds
Suicidal writers
Wedding death dress
Suicidal writers
Loving their suicidal loves
Suicidal writers
filling pages
trying to empty their minds.
Each page,
one breath.
Every breat, one step closer to death.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Maldito emplasto Brás Cubas- Rolando Vezzoni
Na farmácia eu vi um shampoo
para cabelos secos, rebeldes e difíceis de disciplinar.
Irônico, será que meus pelos tem TDA?
Escutei isso a vida toda e de todos os meios.
Será que existe Prozac para meus pentelhos?
Não quero mais cortar a minha unha, então,
para resolver isso, vou dar sibutramina ao meu dedão!
Quando meu intestino ficar louco, darei-lhe Gardenal,
pois, porque aceitar a si e ao outro afinal?
para cabelos secos, rebeldes e difíceis de disciplinar.
Irônico, será que meus pelos tem TDA?
Escutei isso a vida toda e de todos os meios.
Será que existe Prozac para meus pentelhos?
Não quero mais cortar a minha unha, então,
para resolver isso, vou dar sibutramina ao meu dedão!
Quando meu intestino ficar louco, darei-lhe Gardenal,
pois, porque aceitar a si e ao outro afinal?
terça-feira, 18 de outubro de 2011
o homem abstrato, episódio 4- Rolando Vezzoni.
A adolescência:
Voltava ele para onde residia, sua mãe o esperava.
-Filho, por que chegou tão tarde?
-Lembra quando eu te falei de como a linearidade é uma noção pueril?
-Sim, mas isso não é pretexto!
-Bom, eu não uso mais relógio, por isso não me anexei à realidade temporal que você gostaria... Acontece que é difícil lidar com essa régua limitada quando você pensa ´q respeito disso.
A mãe irritada passou a mão no próprio rosto e respirou fundo “sempre foi assim, nunca vai ser diferente”, ainda irritada, olha para ele com seriedade.
-Você está cheirando à cigarro e a bebida, o que anda fazendo nessas festas? Agora você além de toda a esquisitice é fumante? Fumou moleque?!
-O “esquisito” é puramente cultural...
-Eu te fiz uma pergunta!
-Qual a relevância dessa pergunta? Você como sujeito que pergunta entenderá apenas o que for de interesse e coerente com seu conceito pessoal, logo, o objeto, que é minha resposta, não tem porque ser colocado...
Foi interrompido pela mãe que disse bruscamente:
-Quero uma resposta simples e objetiva, não importa qual seja só um sim e um não me bastam.
-Se eu disser “sim”, você automaticamente irá acreditar, e criticará meu sim, logo a resposta não ficaria na simples afirmação, e eu dizendo “não”, provavelmente me perguntaria se é verdade, testando o que eu disse, e depois, por mais que aceitasse a resposta à principio, ainda continuaria a se questionar quanto a veracidade da minha negação... não tem sentido te responder objetivamente, por você lidar com a resposta de maneira subjetiva. Seu pedido é um paradoxo, do qual ninguém sairá ganhando.
-Então você quer que eu simplesmente não te pergunte nada?
-Estou apenas falando que a pergunta é ambígua, você mesma não sabe que resposta prefere, por não confiar plenamente nelas, eu te daria uma resposta limitada para o que ambos buscamos nessa relação de troca a respeito da informação.
-Informação?- disse a mãe com um suspiro desistente.
-É, faz algo ou não faz algo, essa é a máscara da questão, mas as consequências e camadas a serem pensadas não aparecem explícitas.
-”Ahhh”...- disse ela com um suspiro cansado- Desisto, pode dormir se quiser.
-Boa noite querida.
-Boa noite.
Voltava ele para onde residia, sua mãe o esperava.
-Filho, por que chegou tão tarde?
-Lembra quando eu te falei de como a linearidade é uma noção pueril?
-Sim, mas isso não é pretexto!
-Bom, eu não uso mais relógio, por isso não me anexei à realidade temporal que você gostaria... Acontece que é difícil lidar com essa régua limitada quando você pensa ´q respeito disso.
A mãe irritada passou a mão no próprio rosto e respirou fundo “sempre foi assim, nunca vai ser diferente”, ainda irritada, olha para ele com seriedade.
-Você está cheirando à cigarro e a bebida, o que anda fazendo nessas festas? Agora você além de toda a esquisitice é fumante? Fumou moleque?!
-O “esquisito” é puramente cultural...
-Eu te fiz uma pergunta!
-Qual a relevância dessa pergunta? Você como sujeito que pergunta entenderá apenas o que for de interesse e coerente com seu conceito pessoal, logo, o objeto, que é minha resposta, não tem porque ser colocado...
Foi interrompido pela mãe que disse bruscamente:
-Quero uma resposta simples e objetiva, não importa qual seja só um sim e um não me bastam.
-Se eu disser “sim”, você automaticamente irá acreditar, e criticará meu sim, logo a resposta não ficaria na simples afirmação, e eu dizendo “não”, provavelmente me perguntaria se é verdade, testando o que eu disse, e depois, por mais que aceitasse a resposta à principio, ainda continuaria a se questionar quanto a veracidade da minha negação... não tem sentido te responder objetivamente, por você lidar com a resposta de maneira subjetiva. Seu pedido é um paradoxo, do qual ninguém sairá ganhando.
-Então você quer que eu simplesmente não te pergunte nada?
-Estou apenas falando que a pergunta é ambígua, você mesma não sabe que resposta prefere, por não confiar plenamente nelas, eu te daria uma resposta limitada para o que ambos buscamos nessa relação de troca a respeito da informação.
-Informação?- disse a mãe com um suspiro desistente.
-É, faz algo ou não faz algo, essa é a máscara da questão, mas as consequências e camadas a serem pensadas não aparecem explícitas.
-”Ahhh”...- disse ela com um suspiro cansado- Desisto, pode dormir se quiser.
-Boa noite querida.
-Boa noite.
sábado, 15 de outubro de 2011
Minha amiga .38- Bruno Santana
Todos os dias, antes de dormir, dou brilho na minha .38. Ela é minha melhor amiga, me aguenta todo o dia, ouve sem reclamar, reclama
quase nada, fala com parcimônia e tem poder suficiente pra me dar a dose exata de medo.
Minha amiga é inteligentérrima, feita de madeira e aço; com espaço para carregar o tanto de chumbo que eu quiser. Isso sem falar
da sua capacidade de disparar estórias; minha amiga dispara estórias como ninguém!
O problema é que suas estórias são sempre um tanto quanto trágicas e machucam.
Acho que é coisa da família dela, eles guardam muitos esqueletos no armário; ela nunca me disse isso, obviamente,
mas é fácil concluir.
Ela sempre me fala sobre quando seus avós vieram pra América, como encontraram uma terra linda, uma civilização próspera, tecnologia
avançada, essas coisas ...
Infelizmente, os patrões deles não pensavam o mesmo e seus avós trabalharam na destruição daquilo.
Ela diz que é por culpa deles que a América é o que ela é hoje.
Juro que não sei se ela é irônica quando diz isso. É difícil entender, a voz dela é grave. Acho seu único traço não feminino.
Para ser honesto eu não gosto quando ela fala de história, ela sempre se emociona e é difícil ver um trabuco daqueles chorando,
é triste e perigoso.
Gostar eu gosto mesmo quando ela começa a falar sobre o sentido das coisas. Um amor! Se refere à isso como "falar de peixes com
peixes". Conhece toda a filosofia que interessa!
Sempre fica me conta a história de velhos barbudos e suas teoria malucas;
gastamos horas nisso!
A última dela foi me falar sobre os cientistas ingleses; uma raça de homens viciados em chá, verdade e provar que Deus não existe.
Isso sem falar dos amigos. O círculo de amizades dela é, pelo menos, dez vezes mais impressionate que ela própria.
Só nesse último mês eu conheci os ingleses doidões do chá, um médico alemão tarado pela mãe [vê se isso pode!], um poeta americano
bêbado tarado [também] e uma poetisa americana viciada em morrer.
Essa poetisa, preciso confessar, fiquei apaixonado. No entanto, resolvi não contar isso para a minha amiga
... vai que ela é ciumenta?
Eu nunca estragaria uma amizade dessas!
Ahhh, minha amiga, você precisa ver como ela é feliz quando fala comigo!
O sorriso de orelha à orelha naquele perfil metálico polido!
Sabe, ela é o tipo de pessoa que pode te convencer de qualquer coisa. Meus outros amigos e família dizem que por isso mesmo ela é
perigosa. Pra mim é dor de cotovelo,
... tem muito tempo que ela é a única que fala comigo.
Poxa, que loucura!
Dizer que minha amiga é perigosa. Não! Não! Eu não acredito nisso!
Ela não é perigosa! Se Fosse, não dormiria todos os dias com a boca virada para mim.
Não é verdade?
me diz, não é verdade?
quase nada, fala com parcimônia e tem poder suficiente pra me dar a dose exata de medo.
Minha amiga é inteligentérrima, feita de madeira e aço; com espaço para carregar o tanto de chumbo que eu quiser. Isso sem falar
da sua capacidade de disparar estórias; minha amiga dispara estórias como ninguém!
O problema é que suas estórias são sempre um tanto quanto trágicas e machucam.
Acho que é coisa da família dela, eles guardam muitos esqueletos no armário; ela nunca me disse isso, obviamente,
mas é fácil concluir.
Ela sempre me fala sobre quando seus avós vieram pra América, como encontraram uma terra linda, uma civilização próspera, tecnologia
avançada, essas coisas ...
Infelizmente, os patrões deles não pensavam o mesmo e seus avós trabalharam na destruição daquilo.
Ela diz que é por culpa deles que a América é o que ela é hoje.
Juro que não sei se ela é irônica quando diz isso. É difícil entender, a voz dela é grave. Acho seu único traço não feminino.
Para ser honesto eu não gosto quando ela fala de história, ela sempre se emociona e é difícil ver um trabuco daqueles chorando,
é triste e perigoso.
Gostar eu gosto mesmo quando ela começa a falar sobre o sentido das coisas. Um amor! Se refere à isso como "falar de peixes com
peixes". Conhece toda a filosofia que interessa!
Sempre fica me conta a história de velhos barbudos e suas teoria malucas;
gastamos horas nisso!
A última dela foi me falar sobre os cientistas ingleses; uma raça de homens viciados em chá, verdade e provar que Deus não existe.
Isso sem falar dos amigos. O círculo de amizades dela é, pelo menos, dez vezes mais impressionate que ela própria.
Só nesse último mês eu conheci os ingleses doidões do chá, um médico alemão tarado pela mãe [vê se isso pode!], um poeta americano
bêbado tarado [também] e uma poetisa americana viciada em morrer.
Essa poetisa, preciso confessar, fiquei apaixonado. No entanto, resolvi não contar isso para a minha amiga
... vai que ela é ciumenta?
Eu nunca estragaria uma amizade dessas!
Ahhh, minha amiga, você precisa ver como ela é feliz quando fala comigo!
O sorriso de orelha à orelha naquele perfil metálico polido!
Sabe, ela é o tipo de pessoa que pode te convencer de qualquer coisa. Meus outros amigos e família dizem que por isso mesmo ela é
perigosa. Pra mim é dor de cotovelo,
... tem muito tempo que ela é a única que fala comigo.
Poxa, que loucura!
Dizer que minha amiga é perigosa. Não! Não! Eu não acredito nisso!
Ela não é perigosa! Se Fosse, não dormiria todos os dias com a boca virada para mim.
Não é verdade?
me diz, não é verdade?
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