andando cordialmente,
sorrindo débil.
constante rio,
correndo eternamente.
o viam,
o chamavam.
lhe riam.
ele andava.
falava no celular,
movendo-se no mesmo lugar.
jamais rápido,
nem devagar.
a obra veio,
a mudança de seu meio.
e todos os dias de construção,
ele continuou em sua pretensão.
e um dia um muro subiu,
o sujeito prosseguiu.
até hoje fulano com a cara no muro,
parou nele andando sem futuro.
artigo quinto, parágrafo IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
segunda-feira, 26 de abril de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Cão e vaidade- Victor Guidi
Vem meu cão
Pega a bola
Traz pra mim
Diz nada não
Senta, deita, finge de morto
Enterra o osso
Brinca com o moço
Até ficar torto
Vem
Satisfaz teu moço
Come teus restos
Dorme no teu canto
Corra pelo jardim
Olhe a natureza
Você é livre
Agora volta pro teu canto
Traz meu jornal
Pega minha bolinha
Guarda meu jardim
Agora volta pra casinha
O cão é animal,
O dono é pura vaidade
Antes a pobreza racional que a pobreza de espírito
Pega a bola
Traz pra mim
Diz nada não
Senta, deita, finge de morto
Enterra o osso
Brinca com o moço
Até ficar torto
Vem
Satisfaz teu moço
Come teus restos
Dorme no teu canto
Corra pelo jardim
Olhe a natureza
Você é livre
Agora volta pro teu canto
Traz meu jornal
Pega minha bolinha
Guarda meu jardim
Agora volta pra casinha
O cão é animal,
O dono é pura vaidade
Antes a pobreza racional que a pobreza de espírito
quinta-feira, 18 de março de 2010
Feliz dia das mulheres- Rolando Vezzoni
Ela entrou na delegacia, com um sorriso no rosto.
-olá senhorita! Tudo bem?-o delegado perguntou.
-se tudo estivesse bem de fato, eu não estaria aqui, certo?
-faz todo o sentido.O que houve?
-nada, tive um dia normal, trabalhei, depois arrumei a casa.Por isso que a minha blusa púrpura está combinando com o meu olhar.
-veio prestar queixa?
-prestar queixa não, posso até me queixar um pouco se quiser... Meu pai largou minha mãe quando eu era criança, minha mãe cheira tanto que tem desvio de septo, meu filho é um excelente vagabundo, e o meu marido me violenta.
-a senhora não me parece muito feliz.
-feliz? Eu sou feliz! Eu tenho que reclamar das coisas de verdade, eu tenho muitas coisas para reclamar, e isso é ótimo... Não sou que nem esses homens da caneta que tem que ficar inventando vidas de merda para escrever críticas! Eu TENHO essa vida de merda!
-... Não sei o que dizer.
-não diga nada, você não precisaria escutar isso tudo...a culpa é do governo!
-se a senhora não veio aqui para um B. O, porque está aqui?
-vim comemorar o dia das mulheres...
-feliz dia das mulheres.
-olá senhorita! Tudo bem?-o delegado perguntou.
-se tudo estivesse bem de fato, eu não estaria aqui, certo?
-faz todo o sentido.O que houve?
-nada, tive um dia normal, trabalhei, depois arrumei a casa.Por isso que a minha blusa púrpura está combinando com o meu olhar.
-veio prestar queixa?
-prestar queixa não, posso até me queixar um pouco se quiser... Meu pai largou minha mãe quando eu era criança, minha mãe cheira tanto que tem desvio de septo, meu filho é um excelente vagabundo, e o meu marido me violenta.
-a senhora não me parece muito feliz.
-feliz? Eu sou feliz! Eu tenho que reclamar das coisas de verdade, eu tenho muitas coisas para reclamar, e isso é ótimo... Não sou que nem esses homens da caneta que tem que ficar inventando vidas de merda para escrever críticas! Eu TENHO essa vida de merda!
-... Não sei o que dizer.
-não diga nada, você não precisaria escutar isso tudo...a culpa é do governo!
-se a senhora não veio aqui para um B. O, porque está aqui?
-vim comemorar o dia das mulheres...
-feliz dia das mulheres.
terça-feira, 16 de março de 2010
calor do fogo- Marina Naufel
E assim acordei: assustada, por conta de um simples mosquito que me
atormentava o sono. Mas, no fundo, bem lá no fundo, eu sabia que o
motivo verdadeiro que havia me acordado era um “mosquito” muito maior
que o que me rondava. Um que não saía da minha cabeça já havia algumas
horas. E o pior de tudo é que eu tinha certeza de que, se eu não tomasse
logo uma atitude, ele iria acabar tirando de vez meu leve sono.
Eu não sabia puramente o porquê daquele “mosquito” inconveniente ter
surgido, e depois de um dia, eu já o tinha catalogado na lista dos
“insuportáveis”. Ligar os fatos!
Era isso que eu precisava fazer para descobrir o porquê desse
hospedeiro ter escolhido justo a mim. A ordem cronológica dos fatos iria
demorar um bocado de tempo para acabar, afinal meu dia de ontem havia
sido no mínimo... Cheio. Eu não tinha pressa, então logo peguei um papel
e uma caneta para começar a refazer meus passos.
Havia acordado
determinada a cumprir com todas as minhas tarefas e obrigações. Escovei
os dentes, tomei um banho (afinal, acordar às cinco da manhã todo santo
dia tem seu preço), fome. Vesti-me, preparei meu bom café amargo e
finalmente - lá pelas sete da manhã – saí para o trabalho. Passei no
caixa eletrônico e realizei mais certa quantia de tarefas sem tanta
importância. No intervalo dos sinais consegui pintar as unhas de forma
que não parecessem tão mal cuidadas, e liguei para o escritório. Minha
secretária atendeu, e confirmou tudo o que eu queria ouvir: a reunião
iria acontecer dali a pouco (assim que eu chegasse). No mais, tudo
corria como planejado. Trânsito, muito
trânsito! Nada normal para as nove da manhã! Liguei o rádio, e depois
de alguns minutos de espera descobri o motivo de tal rebuliço: incêndio
na favela, de novo. Pela
primeira vez no dia, senti-me brava e estressada! Era a segunda vez que
isso acontecia em menos de um mês, e bem em dia de reunião importante! Por causa daqueles
“descuidados” que ficam se amontoando em um monte de barracos de
papelão, a cidade estava um caos, e eu
iria me atrasar. Isso a secretária não havia previsto. Mero erro de
cálculo da parte dela, contar com o transito bom. Comecei a reunião com
quarenta e cinco minutos de atraso. Quarenta
e cinco! Inaceitável tal comportamento vindo da minha parte, mas
eu não tinha culpa! Pelo menos, foi o único incidente da tarde.
Ao final do dia, tudo o que eu queria –e precisava- era de um bom e belo
banho. Vesti meu roupão, pedi McDonald’s, e, enquanto eu esperava,
liguei a televisão. Nela, as mesmas notícias de sempre: meninas sendo
violentadas por adolescentes sem limites, aviões que caem aparentemente
sem nenhuma explicação, lugares com enchentes que destroem tudo enquanto
outros lugares são destruídos pela seca... Mundo deprimente o nosso.
Estava prestes a desligar a televisão quando... opa! A favela que havia
pegado fogo pela manhã e atrasado minha reunião apareceu nas notícias! E
foi aí que eu percebi os quão estúpidos e ego centristas podemos ser
diante de certas situações! Enquanto eu reclamava por ter chegado
atrasada na minha reunião, aquelas famílias da favela corriam para
salvar seus filhos e sobrinhos (bem como o pouco que possuíam) das
chamas ardentes. O conforto e calor da minha casa nunca me pareceram tão
frios. No meio de toda aquela bagunça emocional a campainha tocou. Fui
receber meu pedido trazido por um motoboy sorridente do McDonald’s
(coisa rara de se ver). Eu finalmente tinha achado a peça (ou
“mosquito”, tanto faz) que parecia não se encaixar na minha cabeça! O
nome dele era “consciência”, e a espécie, “culpa”.
atormentava o sono. Mas, no fundo, bem lá no fundo, eu sabia que o
motivo verdadeiro que havia me acordado era um “mosquito” muito maior
que o que me rondava. Um que não saía da minha cabeça já havia algumas
horas. E o pior de tudo é que eu tinha certeza de que, se eu não tomasse
logo uma atitude, ele iria acabar tirando de vez meu leve sono.
Eu não sabia puramente o porquê daquele “mosquito” inconveniente ter
surgido, e depois de um dia, eu já o tinha catalogado na lista dos
“insuportáveis”. Ligar os fatos!
Era isso que eu precisava fazer para descobrir o porquê desse
hospedeiro ter escolhido justo a mim. A ordem cronológica dos fatos iria
demorar um bocado de tempo para acabar, afinal meu dia de ontem havia
sido no mínimo... Cheio. Eu não tinha pressa, então logo peguei um papel
e uma caneta para começar a refazer meus passos.
Havia acordado
determinada a cumprir com todas as minhas tarefas e obrigações. Escovei
os dentes, tomei um banho (afinal, acordar às cinco da manhã todo santo
dia tem seu preço), fome. Vesti-me, preparei meu bom café amargo e
finalmente - lá pelas sete da manhã – saí para o trabalho. Passei no
caixa eletrônico e realizei mais certa quantia de tarefas sem tanta
importância. No intervalo dos sinais consegui pintar as unhas de forma
que não parecessem tão mal cuidadas, e liguei para o escritório. Minha
secretária atendeu, e confirmou tudo o que eu queria ouvir: a reunião
iria acontecer dali a pouco (assim que eu chegasse). No mais, tudo
corria como planejado. Trânsito, muito
trânsito! Nada normal para as nove da manhã! Liguei o rádio, e depois
de alguns minutos de espera descobri o motivo de tal rebuliço: incêndio
na favela, de novo. Pela
primeira vez no dia, senti-me brava e estressada! Era a segunda vez que
isso acontecia em menos de um mês, e bem em dia de reunião importante! Por causa daqueles
“descuidados” que ficam se amontoando em um monte de barracos de
papelão, a cidade estava um caos, e eu
iria me atrasar. Isso a secretária não havia previsto. Mero erro de
cálculo da parte dela, contar com o transito bom. Comecei a reunião com
quarenta e cinco minutos de atraso. Quarenta
e cinco! Inaceitável tal comportamento vindo da minha parte, mas
eu não tinha culpa! Pelo menos, foi o único incidente da tarde.
Ao final do dia, tudo o que eu queria –e precisava- era de um bom e belo
banho. Vesti meu roupão, pedi McDonald’s, e, enquanto eu esperava,
liguei a televisão. Nela, as mesmas notícias de sempre: meninas sendo
violentadas por adolescentes sem limites, aviões que caem aparentemente
sem nenhuma explicação, lugares com enchentes que destroem tudo enquanto
outros lugares são destruídos pela seca... Mundo deprimente o nosso.
Estava prestes a desligar a televisão quando... opa! A favela que havia
pegado fogo pela manhã e atrasado minha reunião apareceu nas notícias! E
foi aí que eu percebi os quão estúpidos e ego centristas podemos ser
diante de certas situações! Enquanto eu reclamava por ter chegado
atrasada na minha reunião, aquelas famílias da favela corriam para
salvar seus filhos e sobrinhos (bem como o pouco que possuíam) das
chamas ardentes. O conforto e calor da minha casa nunca me pareceram tão
frios. No meio de toda aquela bagunça emocional a campainha tocou. Fui
receber meu pedido trazido por um motoboy sorridente do McDonald’s
(coisa rara de se ver). Eu finalmente tinha achado a peça (ou
“mosquito”, tanto faz) que parecia não se encaixar na minha cabeça! O
nome dele era “consciência”, e a espécie, “culpa”.
segunda-feira, 8 de março de 2010
A coleira e a guia.- Rolando Vezzoni
Ele foi andar com o seu cachorro.
Colocou um chinelo, colocou a coleira e a guia no animal.
Antes ele costumava andar despreocupadamente, sem coleira, sem guia, sem nada... Mas os tempos haviam mudado, e agora se prende o animal por seu próprio bem, e também para seus vizinhos não incomodarem tanto.
Quando o animal era pequeno, não saia de casa, depois quando ficou mais seguro passou a leva-lo para dar uma voltinha com guia curta.
Saíram da casa, e o animal começou a cheirar os dejetos de outros que passaram mais cedo.
Aos dois anos animal era muito agitado e corria muito, queria fazer de tudo, e a coleira enforcadora foi necessária.
O animal estava calmo ao seu lado, eles estavam indo para o parque.
Com quase quatro anos, já havia sido domesticado o suficiente para andar com guia frouxa, e logo, sem ela.
No caminho trombou com outro cachorro e cheiraram seus anus com se fossem as mais cheirosas flores.
Andou durante alguns meses sem guia nem coleira, mas teve que parar, pois os vizinhos não acharam seguro, por mais dócil que fosse, ele não deixava de ser um animal...E reclamaram dias e noites, até conseguir amarra-lo na mão de alguém.
Estavam chagando no parque onde costumam ir, pois tem um cercado de 25m de diâmetro onde o cachorro pode ver-se livre de sua coleira e guia.
Ele se conforma com aquele cantinho fedido que tem para ficar livre... Livre?
Humilhante a condição de mamífero socializado, tanto dele, como do dono... Sempre aprisionados, sempre castrados, sempre esmagados por uma massa maldosa e estúpida.
A coleira é uma criação humana, ela é usada para identificar algum animal, como um documento. A guia é usada para controlar, ou impedir algum animal de se portar de modo anti-social... O ser humano usa suas próprias coleiras para ser aceito em seu meio, e é guiado por pessoas que desconhece.
Colocou um chinelo, colocou a coleira e a guia no animal.
Antes ele costumava andar despreocupadamente, sem coleira, sem guia, sem nada... Mas os tempos haviam mudado, e agora se prende o animal por seu próprio bem, e também para seus vizinhos não incomodarem tanto.
Quando o animal era pequeno, não saia de casa, depois quando ficou mais seguro passou a leva-lo para dar uma voltinha com guia curta.
Saíram da casa, e o animal começou a cheirar os dejetos de outros que passaram mais cedo.
Aos dois anos animal era muito agitado e corria muito, queria fazer de tudo, e a coleira enforcadora foi necessária.
O animal estava calmo ao seu lado, eles estavam indo para o parque.
Com quase quatro anos, já havia sido domesticado o suficiente para andar com guia frouxa, e logo, sem ela.
No caminho trombou com outro cachorro e cheiraram seus anus com se fossem as mais cheirosas flores.
Andou durante alguns meses sem guia nem coleira, mas teve que parar, pois os vizinhos não acharam seguro, por mais dócil que fosse, ele não deixava de ser um animal...E reclamaram dias e noites, até conseguir amarra-lo na mão de alguém.
Estavam chagando no parque onde costumam ir, pois tem um cercado de 25m de diâmetro onde o cachorro pode ver-se livre de sua coleira e guia.
Ele se conforma com aquele cantinho fedido que tem para ficar livre... Livre?
Humilhante a condição de mamífero socializado, tanto dele, como do dono... Sempre aprisionados, sempre castrados, sempre esmagados por uma massa maldosa e estúpida.
A coleira é uma criação humana, ela é usada para identificar algum animal, como um documento. A guia é usada para controlar, ou impedir algum animal de se portar de modo anti-social... O ser humano usa suas próprias coleiras para ser aceito em seu meio, e é guiado por pessoas que desconhece.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
a acefalia coletiva.- Rolando Vezzoni
Amanheceu, como ontem, anteontem...
Ele acordou, tomou banho, e se vestiu.
Ela preparou o café da manhã.
Eles comeram.
Ele foi ao trabalho, e ela ao colégio das crianças para a reunião de pais.
O outro o encontrou no trabalho.
-bom dia.
-bom dia.
-o que temos para fazer?
-não sei...
Era outro dia normal de trabalho.
Ela encontrou com a outra na reunião de pais.
-bom dia.
-bom dia.
-como tem ido as crianças?
-bem, e o seu menino?
-bem.
Encaminhavam-se para a reunião.
Eles saíram para almoçar, mas nunca tinham fome, então bebiam em um bar das redondezas.
O centro da cidade era muito pequeno, tinha muita gente deitada ocupando espaço da calçada, muito cheiro de fezes humanas na praça... Como odiavam andar por ali. O barman os viu chegando.
-duas?
-duas.
-é.
-o que você vai fazer depois do trabalho?-perguntou o outro.
-eu estou tendo um caso, mas nada sério, vou ficar até mais tarde no escritório.
-você não é casado?
-sou.
-ah.
Voltaram para o escritório, respirando a poluição da cidade, que lhes incomodava, por mais que soubessem que ela é necessária para o progresso... Então reclamavam em silencio, para si mesmos.
Já era uma e meia, como ontem, anteontem...
Elas saíram da reunião, que havia sido exaustiva. Todos reclamavam das crianças e dos jovens...
-é normal fazer brincadeiras maldosas com os outros! Quem nunca fez? Hoje em dia reclamam de tudo.
-falaram algo dos seus?
-nada de importante, e do seu?
-nada.
-o que você fará hoje?
-nada, meu marido fica até mais tarde no trabalho, não preciso fazer jantar, então eu vou assistir tevê, e você?
-vou encontrar com um velho amigo meu hoje mais tarde...
-ah.-ela deixou o colégio e voltou para casa.
Ela não queria ir para casa, odiava ficar só. Mas logo as crianças voltariam, e ela teria com o que se ocupar.
O outro já havia saído do escritório, havia perdido o emprego por ter bebido no almoço.
Ele não.
O outro parou no bar, e vai por lá ficar um bom tempo, afinal, a outra ficaria irritada com a notícia pois adora comprar coisas.
O dia passou mais um bocado, como os outros que vieram antes.
Ele estava só no escritório.
A outra estava chegando.
Encontraram-se, transaram, e foram embora.
A outra chegou em casa, não viu o marido, e foi dormir.
Ela esperou ele chegar.
O outro dormiu no sofá do bar.
Ele foi dormir com ela.
-como foi seu dia?
-normal, e o seu?
-normal.
-boa noite.
-boa noite.
E eles dormiram, como ontem, anteontem...
Ele acordou, tomou banho, e se vestiu.
Ela preparou o café da manhã.
Eles comeram.
Ele foi ao trabalho, e ela ao colégio das crianças para a reunião de pais.
O outro o encontrou no trabalho.
-bom dia.
-bom dia.
-o que temos para fazer?
-não sei...
Era outro dia normal de trabalho.
Ela encontrou com a outra na reunião de pais.
-bom dia.
-bom dia.
-como tem ido as crianças?
-bem, e o seu menino?
-bem.
Encaminhavam-se para a reunião.
Eles saíram para almoçar, mas nunca tinham fome, então bebiam em um bar das redondezas.
O centro da cidade era muito pequeno, tinha muita gente deitada ocupando espaço da calçada, muito cheiro de fezes humanas na praça... Como odiavam andar por ali. O barman os viu chegando.
-duas?
-duas.
-é.
-o que você vai fazer depois do trabalho?-perguntou o outro.
-eu estou tendo um caso, mas nada sério, vou ficar até mais tarde no escritório.
-você não é casado?
-sou.
-ah.
Voltaram para o escritório, respirando a poluição da cidade, que lhes incomodava, por mais que soubessem que ela é necessária para o progresso... Então reclamavam em silencio, para si mesmos.
Já era uma e meia, como ontem, anteontem...
Elas saíram da reunião, que havia sido exaustiva. Todos reclamavam das crianças e dos jovens...
-é normal fazer brincadeiras maldosas com os outros! Quem nunca fez? Hoje em dia reclamam de tudo.
-falaram algo dos seus?
-nada de importante, e do seu?
-nada.
-o que você fará hoje?
-nada, meu marido fica até mais tarde no trabalho, não preciso fazer jantar, então eu vou assistir tevê, e você?
-vou encontrar com um velho amigo meu hoje mais tarde...
-ah.-ela deixou o colégio e voltou para casa.
Ela não queria ir para casa, odiava ficar só. Mas logo as crianças voltariam, e ela teria com o que se ocupar.
O outro já havia saído do escritório, havia perdido o emprego por ter bebido no almoço.
Ele não.
O outro parou no bar, e vai por lá ficar um bom tempo, afinal, a outra ficaria irritada com a notícia pois adora comprar coisas.
O dia passou mais um bocado, como os outros que vieram antes.
Ele estava só no escritório.
A outra estava chegando.
Encontraram-se, transaram, e foram embora.
A outra chegou em casa, não viu o marido, e foi dormir.
Ela esperou ele chegar.
O outro dormiu no sofá do bar.
Ele foi dormir com ela.
-como foi seu dia?
-normal, e o seu?
-normal.
-boa noite.
-boa noite.
E eles dormiram, como ontem, anteontem...
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
elogios á parte
de novo,
a casa...
Porta aberta,
escancarada,
esmurrada.
Janela quebrada,
estilhaçada.
Parede rachada.
ovo estourado,
sujando o tapete.
latidos do cão.
Chuva com trovão,
bebe chorão.
animal fedido,
ferido.
Carpetes roídos,
rasgados.
Móveis podres,
despedaçados.
Garrafa estourada,
no chão da cozinha...
Serei eu,
assim tão feio?
a casa...
Porta aberta,
escancarada,
esmurrada.
Janela quebrada,
estilhaçada.
Parede rachada.
ovo estourado,
sujando o tapete.
latidos do cão.
Chuva com trovão,
bebe chorão.
animal fedido,
ferido.
Carpetes roídos,
rasgados.
Móveis podres,
despedaçados.
Garrafa estourada,
no chão da cozinha...
Serei eu,
assim tão feio?
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Dependência- Caroline Bellangero
O vidro segura o álcool,
que segura o homem pro dia seguinte
O homem segura o vidro,
que leva a água, o vinho, ao pedinte
O álcool seca no vidro,
seca na boca,
e na carne fria
O vidro segura o homem,
que nem o álcool,
só que sem vida
que segura o homem pro dia seguinte
O homem segura o vidro,
que leva a água, o vinho, ao pedinte
O álcool seca no vidro,
seca na boca,
e na carne fria
O vidro segura o homem,
que nem o álcool,
só que sem vida
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
A vela- Rolando Vezzoni
Agora eu fugia, fugia da fuga, que era pouco antes, importante, tanto quanto um remédio necessário, mais que necessário.
Entrei quase destruindo a porta da casa, esta, em abandono extremo.
Por fora carcomida pelo vandalismo e podridão, por dentro era pior.
Era Tudo tão escuro.
Procurei o conforto, mas minha droga me afastava.
Sondando pela casa logo vi uma vela que naquela escuridão brilhava fraca num candelabro torto.
Andei cautelosamente atrás de seu calor.
Me aproximando, percebi algo nas sombras, um rosto com olhos enormes carregados de olheiras maiores ainda, uma boca lotada de dentes e escárnio com a palidez de quem sabe apenas temer.
o tempo parou.
...
Odiei aquilo que via, fedia a morte.
Enlouqueci.
Precisava me livrar daquela fera.
Urrei. Corri. Abati.
...
Tudo se desmaterializou, e pedras brilhantes choveram sobre meu pé.
O que vira a pouco era meu reflexo, num espelho tão sujo que me escapou qualquer semelhança,
e agora, lá eu jazia, no chão, quebrado como um quebra-cabeça incompleto, e sujo de sangue.
Tentei me reconstruir, mas a vela apagou furtivamente.
...
Eu me encontrei perdido.
Não há mais luz, nem esperança.
Entrei quase destruindo a porta da casa, esta, em abandono extremo.
Por fora carcomida pelo vandalismo e podridão, por dentro era pior.
Era Tudo tão escuro.
Procurei o conforto, mas minha droga me afastava.
Sondando pela casa logo vi uma vela que naquela escuridão brilhava fraca num candelabro torto.
Andei cautelosamente atrás de seu calor.
Me aproximando, percebi algo nas sombras, um rosto com olhos enormes carregados de olheiras maiores ainda, uma boca lotada de dentes e escárnio com a palidez de quem sabe apenas temer.
o tempo parou.
...
Odiei aquilo que via, fedia a morte.
Enlouqueci.
Precisava me livrar daquela fera.
Urrei. Corri. Abati.
...
Tudo se desmaterializou, e pedras brilhantes choveram sobre meu pé.
O que vira a pouco era meu reflexo, num espelho tão sujo que me escapou qualquer semelhança,
e agora, lá eu jazia, no chão, quebrado como um quebra-cabeça incompleto, e sujo de sangue.
Tentei me reconstruir, mas a vela apagou furtivamente.
...
Eu me encontrei perdido.
Não há mais luz, nem esperança.
domingo, 31 de janeiro de 2010
O trem- Rolando Vezzoni
Cabeça jazia
Do lado esquerdo do trilho
Na ultima linha
Caindo lagrima de pai sem filho
Olhos saltando em desespero
Estava tudo no espelho
Até o medo do trem que vinha
O corpo ainda estava vendo a mesma ladainha
Corpo com medo por não saber
Por nada poder
E sem boca deu um grito
Estava aflito
Uma pena que um corpo sem a sua cabeça
Nunca venha a crescer.
Pobre do corpo sozinho
Preso em seu mundinho
Outro trem logo veio
Cheio mentes mudas,
Massas confusas
A cabeça, o trem acertou em cheio...
Do lado esquerdo do trilho
Na ultima linha
Caindo lagrima de pai sem filho
Olhos saltando em desespero
Estava tudo no espelho
Até o medo do trem que vinha
O corpo ainda estava vendo a mesma ladainha
Corpo com medo por não saber
Por nada poder
E sem boca deu um grito
Estava aflito
Uma pena que um corpo sem a sua cabeça
Nunca venha a crescer.
Pobre do corpo sozinho
Preso em seu mundinho
Outro trem logo veio
Cheio mentes mudas,
Massas confusas
A cabeça, o trem acertou em cheio...
sábado, 30 de janeiro de 2010
O cão- Rolando Vezzoni
Já havia algum tempo que ele tentava dormir, estava encontrando certa dificuldade de engrenar em seu sonho.
Seu respectivo cão estava andando lentamente pelo quarto.
Subitamente, pulou na cama, e deitou no pé do dele.
-hei! Vaza daí animal!- e o empurrou delicadamente para fora da cama.
O cão, de maneira quase que sarcástica, voltou à cama, independente da vontade do dono. Este deu um empurrão, pouco eficiente, com o peito do pé. O cão olhou-o com sono, e bocejou.
-sai da cama, - já com uma ponta de irritação.-você é grande demais!
Novamente, foi para o chão.
Ele deu uma risadinha, e olhou com escárnio para o animal. O animal não pareceu ligar muito, e voltou ao pé da cama antes mesmo do dono poder desfrutar da vitória.
-não pode! Feio!- estava com o orgulho ferido, por ter sido passado para traz.
A única resposta do animal foi um olhar débil.
-me deixe dormir!- arremessou o cão.
Passaram alguns minutos, já estava sentindo que encontraria morfeu. Mas na verdade abriu os olhos com susto, pois ele apenas encontrou um focinho molhado próximo de sua face.
Deu uma patada no animal, fazendo-o parar longe.
O cão, assustado, ficou no tapete, do outro lado do quarto, e logo dormiu.
O dono sentiu-se mal por sua agressividade, por seu desdém, e resolveu chamar seu cão.
Mas, o animal, não lhe respondeu o chamado, estava agora confortável, e dormindo, não precisava mais da cama de seu dono.
Chamou, chamou, chamou. Nada.
Ele não conseguia dormir, estava cansado demais, pesado demais, e sozinho.
Nada faria o cão voltar para sua cama.
Seu respectivo cão estava andando lentamente pelo quarto.
Subitamente, pulou na cama, e deitou no pé do dele.
-hei! Vaza daí animal!- e o empurrou delicadamente para fora da cama.
O cão, de maneira quase que sarcástica, voltou à cama, independente da vontade do dono. Este deu um empurrão, pouco eficiente, com o peito do pé. O cão olhou-o com sono, e bocejou.
-sai da cama, - já com uma ponta de irritação.-você é grande demais!
Novamente, foi para o chão.
Ele deu uma risadinha, e olhou com escárnio para o animal. O animal não pareceu ligar muito, e voltou ao pé da cama antes mesmo do dono poder desfrutar da vitória.
-não pode! Feio!- estava com o orgulho ferido, por ter sido passado para traz.
A única resposta do animal foi um olhar débil.
-me deixe dormir!- arremessou o cão.
Passaram alguns minutos, já estava sentindo que encontraria morfeu. Mas na verdade abriu os olhos com susto, pois ele apenas encontrou um focinho molhado próximo de sua face.
Deu uma patada no animal, fazendo-o parar longe.
O cão, assustado, ficou no tapete, do outro lado do quarto, e logo dormiu.
O dono sentiu-se mal por sua agressividade, por seu desdém, e resolveu chamar seu cão.
Mas, o animal, não lhe respondeu o chamado, estava agora confortável, e dormindo, não precisava mais da cama de seu dono.
Chamou, chamou, chamou. Nada.
Ele não conseguia dormir, estava cansado demais, pesado demais, e sozinho.
Nada faria o cão voltar para sua cama.
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