quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Quantizada - Bruno Santana


Um velho sem mar
Um mestre sem margarida
Um Gatsby sem estilo
Um Chinaski sóbrio:

Aqueles livros empilhados.

Um fio de cabelo caído
Um concerto sem emoção
Uma equação sem sentido
Um verso sem rima:

A vida amontoada.

Letras enfileiradas
Frases encadeadas
Parágrafos delimitados
Diário latejante:

As palavras ficaram.

Tentativas frustradas
Silêncio de negócios
Oscilações neuroquímicas
Organismo quantizado:

Nada tem sentido.

Não! Não! Não!

O Nada tem sentido.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Manhã azulada- Rolando Vezzoni

Resolveu passar a noite em claro por haver dormido pouco na noite anterior.
Passou aquele dia todo oscilando entre a náusea e a fraqueza psíquica, um bem bolado de ressaca moral e efetiva somado a algum desânimo.
Passar a noite em pé quando não se está ocupado e entre amigos é um desafio que envolve competência, convicção e perfil lunático, hora satisfeito com essa auto-mutilação mental, hora pensando se, em efetivo, deveria fazer aquilo. Aí a parte lunática... É claro que não deveria.
O primeiro terço foi fácil, rede social e punheta, punheta e rede social, depois banho e diversas banalidades da rede... não havia como não se perceber o início de uma congestão mental brutíssima, e isso tudo devido ao enfrentar de mais uma noite de excessos bastante claros em uma gama razoável de sentidos, estava com a mesma camiseta á 36 horas.
O segundo terço teve como sua função o simular de um purgatório, repleto de minutos contados e recontados. Já havia tomado a decisão de não dormir, logo, também não poderia comer, pois a comida serve como auxílio externo, e para ele isso seria um placebo criminoso, uma droga pesada no mundo dos desafios auto-impostos lunáticos.
 Tinha fome e sono, e sabendo de seus horários iniciou o milésimo cálculo da noite, valeria a pena encerrar sua epopeia durante o interlúdio? Suas mãos ainda tremiam, e seu ombro pulsava, seria esse o fim? Havia entrado de cabeça na psicose e sabia bem disso, então decidiu remediar o balanço cerebral olhando as incomplexidades alheias, ia de volta para a rede... mas deu para trás, sabia que abrindo aquela janela corria o gravíssimo risco de ser abordado por alguém, letras escuras em uma janela pop-up piscando de forma genérica, demandando atenção e resposta. Sabia que não aguentaria aquilo... talvez pudesse ficar num falso offline? Não, se mudasse para offline dentro do universo azul e branco social nunca mais voltaria a aparecer, perderia tudo, afundaria num abismo.
Por fim deu uma caminhada de dez minutos em uma trajetória semi circular envolta da sua cama... afinal, não poderia ser diferente, se não ia dormir nem comer, também não poderia sair do cômodo.
O terceiro terço teve um caráter semi-eufórico, é a onda da falta ou do excesso de "o que quer que seja" que rola no encéfalo e nos hemisférios fazendo tudo parecer sintético. Ainda mais quando faz horas que está sem comer, dormir ou se entorpecer, a desintoxicação suprema, o destilar do ser humano, o caminho do homem para o homúnculo, quando tudo fica mais gelado e falso, o mundo coberto por  plástico, a única coisa que ainda parece existir é o cinzeiro cheio e a boca azeda.
A essa altura já estava trancado no banheiro, o perfume de "uma alguém" que brotou e foi embora vazia de significado horas atrás ainda evaporava singelo da camiseta de 36 horas, meio molhada por ter sido colocada de novo depois do banho, antes do corpo secar por completo... lhe era impossível tirar a camiseta.
Mais um cigarro, mais uma mulher, mais uma coca-cola, uma cerveja e mais uma música, um milhão de coisas aconteceram naquelas ultimas 36 horas, mas ainda estava com muito sono e fome... ainda não era o bastante, faltava algo, sempre falta, não importa o quanto se sublime.
Epílogo? Sim, depois deu a hora, tomou outro banho, se perdeu dentro do quarto e trocou de roupa, abriu a janela e fechou a janela esperando frenético pelo despertador. Olhou para o espelho, olheiras imensas, como riscos de carvão... fora isso estava bem disfarçado, ninguém sabia dos pensamentos não elaborados e das idéias vacilantes que a mente não trabalhou, um grupo de divagações rebeldes que querem muito um travesseiro para no dia seguinte fazerem sentido.
Aquela foi a manhã mais azulada do universo.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sobrancelhas brancas- Rolando Vezzoni

   Caminhando, caminhando sem pensar, provavelmente porque havia acabado de jantar e faltava alguns mililitros de sangue na na cachola, ou não, pois estava pensando em não pensar em nada e atribuiu isso ao fato de ter jantado. Mas o que quer que fosse que estivesse pairando em sua mente era pouco importante e nada concreto.
   Quando se habitua a andar com seu cachorro é comum desaprender a se comunicar, pois o cachorro não fala, ao passo que também se desaprende a ficar sozinho devido á inacreditável companhia que apenas um bom canino pode oferecer. Estava bastante desconfortável com relação a isso, e mais desconfortável ainda por estar pensando nisso e em si mesmo pensando nisso... interrompeu a linha quando um nariz preto úmido e gelado brotou na palma da sua mão.
   "um?!" olhou e sorriu em seguida "ei dog, psiu!"
   -Opa! como é que você anda?- Diz sorridente um senhor, com uma voz intensa completamente incoerente com seu aspecto frágil, meio coxo, barbado e vermelho ofegante.
   -Beeem, e o senhor?- soltou em estado hipinótico, fazendo o máximo para ser tão agradável quanto ele.
   -Sim.- simplesmente- Você viu como ela está maior?
   Passa o olhar para aquela delicada vira-lata que amistosamente se esfregava em sua mão, arrasta a palma até a parte inferior do focinho calmamente, afagando e a deixando satisfeitíssima.
   "eu não conheço essa mocinha, não conheço esse senhor... eu nem sou daqui direito, não desse lugar, nenhum lugar"
   -Uhum, ela tá linda, quanto tempo mesmo?
   -8 meses... eu já ensinei uma coleção de truques para ela!- responde numa tonalidade intermediária entre o estasiado e o calmo.
   Nessa altura eram companheiros de jornada, inconscientemente havia desacelerado o passo para se adequar ao das quatro sobrancelhas brancas.
   Conforme o andar prosseguia conversou algo que não lembrava, mas não se importava muito com o fato de não lembrar, o pouco que se importava era referente ao fato de pensar a respeito do porque não se importava com o que pensava, e isso era, para ele, bastante importante.
   Quando retornou a sua casa estava em outro planeta, num conforto psicótico que vinha aos poucos passando, vinha passando a partir do momento em que o senhor entrou em um condomínio de apartamentos  acenando adeus, isso alguns minutos antes.
   Começou a organizar a imagem... a voz vacilava um pouco ofegante, mas era grave e calma, um paradoxo, assim como os cabelos branco-pálidos contrastando com a pele vermelha suada e com o olhar distante. Um homem cansado em estado de absoluta satisfação com sua vira-latinha peralta pulando arbustos conforme os comandos.
   Eram quase vizinhos, mas ele não lembrava, o senhor sim, até puxou assunto, ele não conseguiria lembrar se efetivamente conhecia a dupla, jamais conseguiria, pois é habituado a andar com seu cachorro em silêncio e acompanhado, noutro plano, noutro mundo.
   O senhor disse que sempre teve cachorro... e ele também, só que com bem menos sempre, e bem menos vibração... algumas pessoas são vibrantes.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A história precisa de um final.- Bruno Santana


“Isso não é nada inspirador”; pensou ele depois de uma hora folheando diários antigos. ”Que raios de ideia foi essa: buscar inspiração nos vômitos cotidianos de minha mente perturbada. Isso não funciona, se vomitei é porque não tinha valor. Eu deveria sair para caminhar, comprar café, comprar um livros, ver alguns pássaros ou algo do tipo”. Fechou o último caderno, guardou o lápis no estojo, arrumou a mesa e passou a mão na cara.
“Não vai dar em nada; sei que não vai dar em nada. Não é assim que se escrever. Não! Não! Lembre-se das máximas! Lembre-se dos grandes!”. Enquanto pensava, pegou o bloco em que anotava grandes aforismos.
“Aprender a ler bem e a escrever bem” ~ Friedrich Nietzsche
“Find what you Love and let it kill you” ~Charles Bukowski
“There is nothing to writing. All you do is sit down at a typewriter and bleed.” ~Ernest Heminghway
“Merda! Onde ficou aquela da Sylvia. Aquela sobre não poder interromper o fluxo de pensamento na hora de escrever ...
.... era algo como: “Não posso estancar o sangramento. Quando olho, lá está o fluxo; sangue, poesia.” É, deve ser algo parecido.”. Fechou o caderno e saiu para a varanda da casa. No caminho, apanhou o maço de cigarros e o isqueiro vermelho.
Sentou com os cachorros por um momento e acendeu o cigarro. Na primeira tragada sentiu o peso do mundo em seus ombros; talvez não do mundo todo, mas da parte de mundo que não consegue escrever um conto. “Por que essa obsessão com contos? Era muito mais feliz quando escrevia poemas. O que quero ser? A porra de um Salinger ou Machado de Assis. Não tenho colhões para ser nenhum deles.”
Pensava que a necessidade de escrever contos surgira depois de ver o edital de um concurso para escritores. Aceitavam trabalhos na forma de contos ou romances. Um romance, com certeza, ele não produziria. Escrever uma novela é como casar e ter filhos: é preciso maturidade para não fazer merda e colocar outro perdido no mundo.
Sendo assim, sua oportunidade era trabalhar em cima das pequenas estórias.
Ele até tinha algumas. Quatro ou nove pequenas narrações não terminadas. Era sempre assim. Sentava ao computador, escrevia dez páginas e a mente secava. Construía personagens interessantes, esboçava uma trama, um cenário, mas era só isso. Suas estórias nunca tinham fim.
Escrevera a do gênio solitário, do menino sem emprego, da garota morta, do casal com problemas. Ótimas estórias, bom estilo, veia narrativa perfeita. No entanto, nenhuma delas tinha final.
Tentara levar seu problema ao analista, mas problemas de escrita não são matéria de psicólogos. Psicólogos sabem de mentes com defeitos e não de estórias sem final.
Também tentara ver mais filmes, ler mais livros, ouvir mais músicas, mas nada funcionava. Pensava, pensava, pensava, mas nenhum pensamento trazia fim à suas estórias.
Certa vez teve um insight: “Como posso escrever finais, se nunca terminei nada que comecei!?”. Começara a faculdade e não terminara, tinha um namoro péssimo que não terminava por comodismo e até sua higiene bucal era deixada pela metade. Era impaciente. Ansioso.
Sempre estava entre a xícara de café e os cigarros. Ansiosamente terminando um e começando outro. Vale a pensa acrescentar: era fato sabido que suas bitucas eram as maiores bitucas do oeste.
Ao menos, o dia era frio. Como constatara ao fumar o cigarro na varanda. Chovera na noite anterior e as nuvens encobriam o sol. Seus cachorros estavam encolhidos dentro da casinha e fumar foi um ato solitário.
Enquanto expelia fumaça dos pulmões alguns pensamentos passavam por sua mente, Infelizmente, nenhum era importante o suficiente para ser escrito. Infelizmente, nenhum era tão bom que oferecesse um final para alguma das histórias.
Ponderou que tudo aquilo de escrever era bobeira adolescente. Começara com a mania boba depois que tomara um pé na bunda. Seu coração partido só encontrava consolo na folha de papel em branco.
Poderia ser isso: precisava de um coração partido. No entanto, conseguir um nesses dias não era tarefa das mais fáceis. Com o tempo, construíra uma barreira emocional intransponível. Teria de tentar outra coisa.
Pegar o ônibus, sentar no banco da praça e rabiscar no bloco de anotações. Essa sim era uma grande ideia!
Saiu da varanda. Entrou no quarto. Trocou de roupa. Pegou um maço novo de cigarros, uma caixa de fósforo – preferia os fósforos quando saía de casa - , procurou algumas moedas, tomou o bloco e um lápis e foi para o ponto.
O ônibus não demorou muito; apareceu em cinco minutos. Prosseguiu até o terminal, de onde tomou outra condução para o centro da cidade. Já na viagem,olhando o rosto das pessoas, teve idéias e esboçou um pequeno poema:
A afronta ~ Giovani Ferreira
Poemas não levam ao céu
Poemas não salvam a pátria
Poemas não enchem barriga
Poemas não ganham garotas
Poemas não fazem nada.
“Um belo poema, mas precisa de um final.” Pensou ele enquanto descia e seguia para a praça. Lá instalado, retirou seu caderninho, o lápis, acendeu o cigarro e começou. Olhava, olhava e olhava. Procurava por cores, caras, formas e tons. Nada parecia suficiente.
Viu uma criança correndo atrás dos pombos. Viu um escarrando, um casal discutindo, um trabalhador seguindo apressado. Não era o esperado. Escrevia três palavras. Riscava duas. Seguia assim.
De repente, uma garota estranha sentou ao seu lado no banco. Possuía aquele tipo de estranheza que deixa as garotas bonitas. Vestia uma camiseta de rock; “The Velvet Underground and Nico”, aquela da banana, concebida por Andy Warhol. Isso interessou o escritor. Interessou muito. Interessou tanto quanto o jeito estranho da garota. Aliás, a camiseta completa seu jeito estranho.
- O que você está fazendo com esse caderninho bonitinho?
- Tentando escrever.
- Legal! Eu também escrevo.
- Interessante.
- Escrevo muito bem por sinal. Tenho ótimos contos, estou procurando alguém para publicá-los.
- Ótimo para você.
Encerrou ele com rispidez. Apesar do interesse na estranheza da garota, não gostava de ser interrompido enquanto escrevia. Estava quase escrevendo algo bom quando a senhorita chegara e ela cortara todo fluxo de pensamento.
Olhou para o caderno, rodou o lápis no dedo, acendeu outro cigarro, mas o fluxo tinha acabado por definitivo. Olhou para ela: estava estirada no banco, olhando atenciosamente para ele. Ela usava um óculos com armação de vó, desses que as garotas modernas pensam ser legais.
- Posso ver o que está escrevendo?
- Não. É pessoal.
- Ah! Corta essa. Pare de ser tímido. Se escreve, escreve para alguém, por que não posso ser esse alguém?
- Por que não. Não escrevo para ninguém. Escrevo para mim mesmo.
- Um belo escritor chato você é. Sim, um escritor bem chato.
Disse ela fechando a cara, fazendo um bico e largando-se ainda mais no banco. De repente, a garota soluçou.
Ele olhou e ela estava chorando. Chorando de verdade.
- O quê? Por que está chorando? Pára! Pára com isso! Não posso ver uma garota chorando.
- Você não gosta de mim. Por isso estou chorando.
- Eu nem te conheço. Não interessa se gosto de você ou não. Pára com esse choro. Quer ler o que eu escrevi. Toma, toma! Mas pára de chorar ok!?
- Tá bom.
- Temos um trato!?
- Sim.
Disse ela, esboçando aquele sorriso de criança quando consegue algo depois da chantagem. Pegou o caderninho e leu:
Quando termina o tempo de sorriso
ainda há tempo?
Quando a piada se perde na graça,
quando o riso desiste da praça,
quando o rosto rechaça,
quando nada é cachaça
ainda há tempo?
Você acha?
- Acho não! Tenho certeza! Sempre há tempo?
- Oi!?
- Estou respondendo a pergunta do seu poema.
- Ah sim. Obrigado. Feliz agora?
- Sim. Você escreve muito bem, mas sua letra é feia e suas frases muito tristes. Você é triste por ter a letra feia?
- O que minha letra tem a ver?
- Tudo. A letra é tudo para quem escreve.
- Besteira.
E voltou para a sua escrita; a menina continuava ali, sentada, olhando para o escritor trabalhando. Ele começou a descrever a garota no bloco. Pensou que aquele tipo poderia ser interessante para um personagem. Fez a imagem detalhadamente: os cabelos castanhos na
altura do ombro, a pele pálida, os olhos selvagens, a camiseta do Velvet Underground, aquela curiosidade insistente, o choro bobo.”Ao menos consegui um personagem.”Começou a sentir certa afeição pela garota. Resolveu perguntar seu nome.
- Luana. Muito prazer!
- Me chamo Giovani. O prazer é todo meu.
- Vai fazer algo agora Giovani!?
- Volto pra casa em meia hora, vai ficar escuro e perigoso aqui.
- “With the lights out it’s less dangerous”
- Quero ver cantar nirvana pra um estuprador na sua cola.
- Brincadeira.
Respondeu ela sorrindo.
- Quer ir para minha casa Giovani?
- Assim, tão rápido? Nem nos conhecemos, posso ser um maníaco qualquer!
- Que você é maníaco eu tenho certeza, mas não se anime. Só quero te mostrar meus textos. Quem sabe não te ensino a terminar um conto?
- Como sabe que não sei terminar contos?
- Oras! Tudo isso aqui: cigarros, banco de praça, a garota estranha chorando, o convite. Isto é narrativa de quem não sabe escrever final.
- Não. Isso quem está escrevendo não sou eu. Esse final não é minha responsabilidade.
- Você que pensa. Você é o protagonista. A responsabilidade é toda sua.
- Merda. Como vou fazer isso?
- Deixa que esse eu termino por você. Mas me compra um sorvete?
- Compro!
- Eba! Então vamos!
Tomou a mão do escritor, levantou e terminou o conto.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Tributo ao mongol- Rolando Vezzoni

Era só criança e brincava no parque.
Lá pros meus cinco pirralhos anos me deparei com o mongoloide e tive medo.
Eu era pequeno, pequeníssimo, e ele imenso me olhou e veio correndo com um sorriso tão grande quanto se pode ter.
Lembro bem de olhar amedrontador e abobado, eu pivete não tinha esse olhar símio e assustador... temia a selvageria, até a selvageria simpática dum monstro mais velho e debiloide que queria minha atenção... a amizade que ele queria era a minha, uma criança incapaz, incapacitada por seu pavor e falta de jogo de cintura.
O tal permanecia andando em meu encontro, eu recuava devagar daquele gigante de 12 anos, doente e frágil, preciosamente vulnerável e poderoso. Tudo ao meu redor ia sumindo, eu suava frio, sentia um nervosismo incomum... 
Lembro-me tão novo, tão cruel com aquela besta dócil... um inumano humano, temendo o tão humano inumano.
Há aquele animal inimputável, nascido normal que se torna um animal arisco, temeroso e fujão... ignorante, deveras... e há aquele marginal, que por puro azar o é.
Talvez seja melhor assumir o desconforto, do que ter pena falsa, simpatia simulada e condescendência.
O mongoloide foi embora leve, e eu o carrego até hoje desconcertado, desesperado com a ideia de ser um sujeito respeitável, que fala de preconceito por ter certeza que esse é o protocolo, mas não olha nos olhos deles... tenho simpatia por aquele garoto sorridente que já quis ser meu amigo, e como meu tributo, lhe dou dignidade não sentindo pena, medo ou remorso, mas contando essa história... pois eu era só uma criança que brincava no parque.

o anjo- Bruno Santana


E dia desses encontrei um anjo na rua.
Tenho certeza que poucos notaram:
um bêbado
algumas crianças
eu
ninguém.

Vestia uma jaqueta de couro
uma bota lustrada
fumava um cigarro
e óculos escuros.

Se não fosse um anjo
juraria que era apenas mais um

mas
era um anjo
eu tinha certeza.

Suas asas não apareciam
mas sabia que estavam ali:

Em algum lugar entre a jaqueta de couro
e a camisa desbotada.

O anjo andava
e olhava para as pessoas

Com cara séria e sisuda
de como quem pensa em tudo e
em todos

E seu andar entregava sua origem angelical
Andava com calma

Na multidão complexa

sem esbarrar em ninguém

Sorria para as crianças
e elas radiantes retornavam o sorriso.

Era um anjo simples
e moderno
talvez nascido aqui mesmo na terra
e promovido à categoria de anjos

Como eu pude saber que era angelical
isso nunca vou saber
Mas seu rosto cintilava aos meus olhos
e sua presença me enchia de terror e paz

Logo eu que pensava ser ateu

mas, acho que acreditar em anjos não é o mesmo que acreditar em Deus

Acreditar em anjos é poético
e poesia é tudo o que desejo.

O anjo andava
andava
andava

inevitavelmente tive de segui-lo
pela rua infestada de pessoas
fria e cheia de vento

Era difícil acompanhá-lo,
pois caminhava no rápido passo angelical
e não esbarrava em ninguém.

Eu também estava de bota
que machucava meu pé
e não conseguia desviar de ninguém.

O perdi de vista
e foi a pior hora do meu dia.

Continuei seguindo em frente
e andando
e andando
e esbarrando

Quando parei para perceber
todos tinham o mesmo semblante
do anjo que eu vira

E todos radiavam
e todos cintilavam

e na rua não havia mais carros.

"Que coisa mais estúpida" ~ pensei eu, acendendo o cigarro.

Quando dei a primeira tragada
O anjo da jaqueta de couro
tomou o isqueiro de minha mão
acendeu seu próprio cigarro angelical

Deu uma baforada na minha cara
expeliu toda a fumaça e me disse
me fulminando com os olhos:

"Estúpida mesmo é essa sua mania de não acreditar
em nada".

Atravessou o cruzamento
bateu as asas
e voltou para sua casa.

terça-feira, 31 de julho de 2012

(sem título) - Rolando Vezzoni

Ele estava naquele cômodo.
Dum lado uma centena de lacunas, abismos, espaços vazios... Um puro espaço potencial a ser ocupado por bestialidades, futilidades e maravilhas.
Noutro vê-se algo como uma estante, repleta de matéria e referência, réplica e interrogações, uma parede branca suja com uma projeção de filme em preto e branco, mesclado por sujeiras escarlates e cheiro de ressaca, passando aquelas coisas todas em um loop inconstante e surpreendentemente inovador, emocional, magoado e conformado.
Na frente não há paredes, é um espaço de contemplação variada, simples, um contato com o "não-sei" escarrado pela latência.
Ele olhou pro cômodo todo, incomodado, no cômodo incômodo.
Não tem muito jeito, quando se lembra que se está ali, entender que é tudo fluxo, corrente, e não tem retorno, no fundo dos cômodos só se tem a parede... Bom, ele acreditava nisso, no imperativo básico do momento, do inevitável "estar" e no pretender, na ausência de sentido de "ser", um agora que é olímpico.
Era olímpico, mas não é mais, porque está permanentemente sendo subjugado por outro agora.
"há!", Essa foi a única onomatopeia cabível a seu raciocínio, um grunhido pulsional seguido por uma quase erótica exclamação... "já que da vida, só se herda ponto final!"
E continuou prosseguindo no cume de sua sobrancelha, na prisão de marfim branco contemplativa, pois ele não vive lá, é aquilo lá. Ao menos até se esquecer de tudo isso e ir trabalhar...
Há!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Atmosfera sombria - Bruno Santana


como passar frio na neblina Londrina
ou estar faminto em Paris;
mas isso, nunca viverei.

Passarei vergonha em uma rua elegante
entre garotas bonitas
e seus seguranças
enquanto ostento uma camisa desbotada
e esgarçada;
assim como a alma dos que vivem bem
comem bem
vestem bem
e cheiram bem.
despeito talvez
Mas, é apenas o que a vergonha causa,

E excita
e cria a Atmosfera sombria;
negra e fria,
na tarde desocupada,
entre livros pesados e músicas complexas
e desenhos preoucupantes
e calculações sem sentido
de uma vida que brota
nasce em negro
e não é cegada pela luz do sol.

Não preciso da noite para escurecer.

Negra para capturar,
toda forma de energia que encontrar
e nunca dividir
nada de si
por que o negro não fala,
o negro escuta,
o negro absorve.

Não preciso da noite para escurecer.

talvez seja uma tonalidade a ser desaprovada,
por pais e professores de pintura,
por encardirem os quadros
mas, em realidade, aqueles que a sabem usar
são os verdadeiros mestres
mestres no escuro.

Não preciso da noite para escurecer.

domingo, 10 de junho de 2012

Soneto á Van Gogh- Rolando Vezzoni

Eu tenho uma arma, ela brilha e corta
e tenho uma pintura brilhante e torta.
Com o pincel, Gouguin também brilha,
e meu sangue opaco, é uma maravilha.

O quadro foi perfeitamente executado,
o corte foi um perfeito fracasso.
O corte fez um estardalhaço,
e o quadro foi guardado.

Meu sangue foi devidamente envelopado,
e meu amor á puta há de ser lembrado,
foi isso que li, obviamente não ouvi.

100 anos se passaram, e já sou um cadáver putrefato,
se fosse bicentenário seria um milionário de fato.
Mas não fui, não tive a puta, Gougin, sucesso ou sequer orelha.

domingo, 3 de junho de 2012

Numero sete- Bruno Santana


Quatrocentos e vinte garotos pensam na vida:
Número um fuma;
Número dois parou;
Número três pinta;
Número quatro desenha escondido;
Número cinco malha;
Número seis toca violão;
Número sete escreve;
Os  quatrocentos e treze restantes pensam em garotas.
Muitas pensam no número um;  ele não pensa em ninguém. Ele pensa com o seu cigarro; o cigarro é tudo que precisa.
Nenhuma pensa no número dois, por isso ele decidiu parar. Parar de fumar, tomar banho, fazer a barba, esconder as espinhas, combinar  as roupas, ficar sóbrio e falar com aquela em que ele pensa. Foda-se se ela não pensa nele.
A modelo nua pensa ter fisgado o número três com seu corpo, mas número três está bem preocupado com o tom de seu cabelo e o preço das telas. Depois da sessão eles vão transar, mas ele, realmente, se preocupa com o preço das telas.
A única que pensa no número quatro é a mãe. Pensa que o filho está doido. Não sabe por que o menino ficou tão sozinho e acabrunhado.
Número cinco pega todas. Número seis também, mas  número seis é um bom rapaz. Sim, sim, ele é um bom rapaz.
Número sete escreve porque já fumou. Já parou quatro vezes. Tentou pintar, mas detestou o que viu na tela. Ele, definitivamente, tem medo de ser internado. Número sete já tentou fazer academia, mas é entediante demais para ele. Ele toca violão.
Toca violão e pensa em todas as quatrocentas e treze outras garotas.
Ele pensa em tudo. Garotas, garotos, cigarros, violões, quadros, academias e romances.
Não, romances não. O número sete parou de pensar em romances.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Cores - Bruno Santana


Tenho sonhado com cores:
Cores diversas
De paleta complexa
Sintéticas e naturais

Misturadas e arranjadas
em peças coloridas
de vivacidade fantástica
e encanto indescritível

Tenho sonhado com cores,
Pensado em tons,
Composto nuances,
Feito misturas

Cores oníricas
Cores em pó
Cores em caldo
Cores em canto

Encantando o poeta
perturbando o sono
preenchendo a noite
rearranjando pensamentos

Cores não aparecem em vida
Cores estreiam em sonhos
Cores desbotam ao sol
Cores, cores, cores, cores.

Cores me dizendo
para correr ao pincel
deitar à tela cada angústia
pensamento, confusão e loucura

Transformando em composição
tudo aquilo que foi
e deve ser rearranjado
Para um dia ser encerrado.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Aos covardes e seus poemas- Rolando Vezzoni


   Chegou a sua casa e abriu um vinho, era ácido e charmoso (charmoso e ácido por já ter sido vinho algum dia, e hoje lembrar vinagre), tanto quem toma... Quanto o que se toma.
   Ficou desorientado, sempre que chega em casa fica assim, bocejou e deitou no chão, com a garrafa perfeitamente equilibrada, depois acendeu um cigarro.
    “médio? Mérdio.” Sorriu “ela realmente incomoda, um grande avanço!” da uma tragada “huuum... uma apatia simpática, grande avanço, é tudo que eu preciso”.
   Uma, ou até duas horas passaram,  lembrou-se de um bom amigo, que sempre andava com uma agenda onde anotava todo o tipo de pensamento, desde o mais banal, até a maravilhosa caricatura da perspicácia e genialidade.
    Algo muito peculiar acontecia com seu amigo, por mais que muito pudesse, jamais escrevia nada, se maquiava de mudo, talvez não por medo, ou o quer que fosse, na verdade era provavelmente por preguiça e falta de fé em sua realização. Se não realiza, como poderá ficar minimamente frustrado?
    “é bem fácil pensar nisso, mas... pensar nisso não pode vir do nada” riu, e sabia que iniciaria uma sistemática sessão de autoanálise “merda, talvez se eu resolver essa garrafa mais rapidamente, dê tempo de parar essa porra”.
    Uma vez seu amigo escreveu um poema, sim, uma vez... “muito bom inclusive!” dizia ele,
Mas o fato é: o poema foi perdido, e como é sabido que não se pode escrever o mesmo bom poema duas vezes, nunca mais escreveu nada.
    “acho que ele não é o único assim” um bocado de cinza caiu no chão e fez uma montanha pequena, épica e cinza ”quero fazer algo que ninguém pode fazer por mim, mas o banheiro é muito longe, vou segurar” tinha plena consciência da sua dificuldade de levantar e fazer o que precisa (em todos os aspectos da sua vida, sabe tão bem que a vida continua que acaba só esperando ela continuar).
     Recebeu uma mensagem de sua grande apatia simpática, leu, e respondeu com dificuldade a mensagem dela.
     “uma noitada vazia demanda mais noitadas vazias, quando para, sente que a cabeça vai explodir, a fragilidade vem à tona” encolheu-se tentando segurar, constatou que o cigarro apagou e acabou o vinho, então cheirou a boca da garrafa.
    O vinho não tem que ser bom, só tem que ser vinho, o cheiro quase não muda, é sempre um  vapor etílico roxo que entorpece as narinas perfumando, e avermelha a face, tem cheiro de porre, de paixão, ou de qualquer outra coisa do tipo.
     “Meu colega perdeu o poema, será que ele tem prisão de ventre?” riu “em que caralhos eu estou pensando?” sabia que tinha alguma coisa em algum lugar, não sabia o que era “médio, definitivamente mérdio”.
     Levantou e foi ao banheiro, claro, esperando a próxima mensagem, e rindo pensando em quanto tempo demoraria para que ele mesmo perdesse seu poema.

domingo, 20 de maio de 2012

Floresta cibernética- Bruno Santana


Florestas cinéticas
transparecendo em folhas ciberbéticas
da rua de volta
da casa para escola.

Correndo no cascalho
na estória que não poderia ser errada
uma manga cai no chão
as meninas riem, se riem todas.

O sinal é antes de tudo
hora de correr pelo pátio
hora de escapar
de qualquer amarra católica.

Agora enfrento, até o mais valente de 1998
as esferas não são de chumbo
a aro forte azul não me espera
hoje coloco meus pés fora da terra.

Acerta como aço incandescente
a têmpora descoberta pelo cabelo certo
perto da casa do otário
um soco resvalado, me apagando pelo lado.

Cai, chorei, rastejei
o valentão sorria, gargalhava e as garotas acenavam
aproximaram-se para olhar o cadáver
e abraçar o canalha.

A aro forte azul chegou
de barba, botina, camisa e calça jeans
me arrancou pelo colarinho e jogou-me na garupa
contando histórias

de porque não brigar por um boi,
mas não sair nem por uma boiada.

domingo, 13 de maio de 2012

Parada- Tomás Fernandes

Nesse exato momento estou sentado num banco numa parada de ônibus no meio da estrada. A caneta de plástico na minha mão está gelada, preferia ter um lápis um apontador e uma borracha, afinal sempre há o medo de borrar um pouco essa pedaço de papel envelhecido que deve ter encontrado no meio das minhas coisas. Na verdade já borrei um pouco.
Um velho está sentado ao meu lado. Ele fuma um cigarro e lê uma revista, de um tipo qualquer que pode ser lida por qualquer pessoa sentada num banco. O cigarro é de uma marca padrão, assim como o meu e também minha caneta, meu caderno e até nossas roupas que nem distinguem a nossa idade; ainda assim é o meu cigarro, a minha caneta, o meu caderno e as minhas roupas, tenho certeza disso. Não que isso faça diferença pra ele, que está apenas esperando o ônibus. Ppara mim por outro lado faz toda a diferença do mundo a minha caneta ter um sabor um pouco diferente daquelas que eu mordiscava nas aulas de geografia do ginásio.
Talvez já tenha conseguido explicar que na verdade não estou esperando qualquer um dos ônibus que estão na minha frente. Na verdade espero muito mais: ainda não sei qual eu vou pegar, embora devesse continuar seguindo pelo mesmo que vai levar ao destino que eu deveria ter escolhido quando o peguei. Claro, isso vai exigir um pouquinho de trabalho: subir ás escondidas e procurar um lugar vazio, encontrar algum motorista mais simpático que aceita um pequeno capricho desses, ou algum mais solícito ao dinheiro que guardo no bolso e me deixe sentar ao seu lado para ver a estrada (A estrada porque todas as estradas enquanto estradas são sempre a mesma coisa).
Mas, por que? Tem algum sentido nos meus atos? Gostaria tanto que tivesse, que fosse uma vontade pura, algo impensado e necessário, mas na verdade não sinto isso. Também não sinto querer chegar em algum qualquer lugar, quero na verdade não saber onde vou chegar, espero na verdade nunca chegar. Nada muito difícil, é só subir em qualquer um deles e descer na próxima parada. Não em uma cidade por favor, não quero identidade nenhuma, algum lugar como esse aqui.
Seria tão mais óbvio se fosse um ato de coragem, de perseguir a liberdade ou algo do gênero. Óbvio mas muito mais verdadeiro, muito mais...seguro de uma maneira boa. Não, é a outra opção óbvia, estou fugindo. Uma fuga completa, pura, a fuga pela fuga, quero entrar nela e viver para todo o sempre(ou pelo menos no tempo que é todo o sempre).
Minha mulher me disse que para quem é corajoso tudo se resolve. Na verdade aí o corajoso é aquele que se dispõe, o que consegue perceber o momento, sua condição e ainda assim atravessar isso, para moldar então o próximo instante. Eu sou um covarde, sempre fui um covarde, só posso querer ser um covarde, á parte isso não tenho em mim nenhum dos sonhos do mundo. Eu quero os sonhos do mundo, droga, só que isso é um capricho grande demais pra um covarde, então agora eu quero só o mundo.
Por ser um covarde tomei todas as pílulas que suavizam o inferno, o caos. Mulher, comida, dinheiro, livros... Mas cada vez o efeito era menor e menor e menor, ao mesmo tempo em que isso criava sua própria vida que se tornava então a minha própria. Uma vida externa a mim... e há anos não há outra.
Toda vida tem como objetivo acabar. Normalmente isso acontece quando falta ar nos pulmões ou o sangue pára de circular. Comigo não aconteceu nada disso. Um dia cheguei um pouco mais cedo do trabalho depois de passar na casa da minha amante e quando entrei em casa descobri minha mulher com o próprio amante. Eu já sabia, ela já sabia que eu sabia e os outros também. 
Eu poderia muito bem ter dito um oi, desculpe por atrapalhar, que tal um vinho? E quase fiz isso: antes de perceberem estava na cozinha pegando uma garrafa, mas de repente resolvi seguir a bula à risca. Quebrei a garrafa na cabeça dele, joguei minha mulher no chão e senti o prazer da ira(que surgiu dentro dos conformes). Até cai de bruços e comecei a soluçar no auge da autopiedade, que acalorava todo meu corpo naquele momento. O homem foi embora e minha mulher em vez de me abraçar pedindo desculpas, disse que eu era um idiota.
Enquanto eu ficava falsamente estupefato com a resposta dela, minha esposa ia jogando pela janela tudo o que era meu que encontrasse pela frente. Um livro que ela mesma havia me dado uma semana antes, todas as minhas roupas, meus cds, meus livros, quadros, fotografias... Parecia que toda a minha vida ia caindo na rua e se despedançando sob as rodas dos automóveis. E era impressionante a beleza daquilo, a destruição de todas aquelas coisas sem o menor significado, cds ouvidos só pelo ouvido, livros lidos só pelos olhos...
Foi assim, perdi aquilo que eu chamava vida, não estou aqui para procurar outra, ou para criar outra. Poderia ter me suicidado há tempos, mas não consegui, posso destruir o corpo que sobrou, mas já disse que sou covarde. Só quero me envolver totalmente na covardia agora.
Não vou escolher o ônibus. Agora boto uns óculos escuros, fecho os olhos, coloco minha caneta sobre o caderno e a giro. Sinto com as mãos para onde está apontando e vou cego até o ônibus. Ninguém abordaria um cego, é claro. Agora abro os olhos, escolho um assento. Por sorte não há ninguém.

Lados congratulados -Jéssica Dacquarica


Me brota instinto de projetar na sua mente
o que a barreira das anti ilusoes
anti prisoes e anti razoes
te impede de avistar

O meu Eu Sensato diz:
"eis que me surge perante o peito
mais um alguem que arranca
parte de mim e a personifica
numa audaciosa hiperbole ambulante
rabiscando o certo e o errado por onde passa
sem ter quem que por si o faça
sistematicamente intuido a mostrar
sua tese against the system

todavia, o meu Eu Procrastinador
proclama impetuosamente
a independencia da complexa personalidade singular
nao sobrevive o fim nem o inicio
celebre a vida