artigo quinto, parágrafo IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
domingo, 3 de junho de 2012
Numero sete- Bruno Santana
Quatrocentos e vinte garotos pensam na vida:
Número um fuma;
Número dois parou;
Número três pinta;
Número quatro desenha escondido;
Número cinco malha;
Número seis toca violão;
Número sete escreve;
Os quatrocentos e treze restantes pensam em garotas.
Muitas pensam no número um; ele não pensa em ninguém. Ele pensa com o seu cigarro; o cigarro é tudo que precisa.
Nenhuma pensa no número dois, por isso ele decidiu parar. Parar de fumar, tomar banho, fazer a barba, esconder as espinhas, combinar as roupas, ficar sóbrio e falar com aquela em que ele pensa. Foda-se se ela não pensa nele.
A modelo nua pensa ter fisgado o número três com seu corpo, mas número três está bem preocupado com o tom de seu cabelo e o preço das telas. Depois da sessão eles vão transar, mas ele, realmente, se preocupa com o preço das telas.
A única que pensa no número quatro é a mãe. Pensa que o filho está doido. Não sabe por que o menino ficou tão sozinho e acabrunhado.
Número cinco pega todas. Número seis também, mas número seis é um bom rapaz. Sim, sim, ele é um bom rapaz.
Número sete escreve porque já fumou. Já parou quatro vezes. Tentou pintar, mas detestou o que viu na tela. Ele, definitivamente, tem medo de ser internado. Número sete já tentou fazer academia, mas é entediante demais para ele. Ele toca violão.
Toca violão e pensa em todas as quatrocentas e treze outras garotas.
Ele pensa em tudo. Garotas, garotos, cigarros, violões, quadros, academias e romances.
Não, romances não. O número sete parou de pensar em romances.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Cores - Bruno Santana
Tenho sonhado com cores:
Cores diversas
De paleta complexa
Sintéticas e naturais
Misturadas e arranjadas
em peças coloridas
de vivacidade fantástica
e encanto indescritível
Tenho sonhado com cores,
Pensado em tons,
Composto nuances,
Feito misturas
Cores oníricas
Cores em pó
Cores em caldo
Cores em canto
Encantando o poeta
perturbando o sono
preenchendo a noite
rearranjando pensamentos
Cores não aparecem em vida
Cores estreiam em sonhos
Cores desbotam ao sol
Cores, cores, cores, cores.
Cores me dizendo
para correr ao pincel
deitar à tela cada angústia
pensamento, confusão e loucura
Transformando em composição
tudo aquilo que foi
e deve ser rearranjado
Para um dia ser encerrado.
terça-feira, 22 de maio de 2012
Aos covardes e seus poemas- Rolando Vezzoni
Chegou
a sua casa e abriu um vinho, era ácido e charmoso (charmoso e ácido por já ter
sido vinho algum dia, e hoje lembrar vinagre), tanto quem toma... Quanto o que
se toma.
Ficou
desorientado, sempre que chega em casa fica assim, bocejou e deitou no chão,
com a garrafa perfeitamente equilibrada, depois acendeu um cigarro.
“médio? Mérdio.” Sorriu “ela realmente
incomoda, um grande avanço!” da uma tragada “huuum... uma apatia simpática,
grande avanço, é tudo que eu preciso”.
Uma, ou até duas horas passaram, lembrou-se de um bom amigo, que sempre andava
com uma agenda onde anotava todo o tipo de pensamento, desde o mais banal, até
a maravilhosa caricatura da perspicácia e genialidade.
Algo muito peculiar acontecia com seu
amigo, por mais que muito pudesse, jamais escrevia nada, se maquiava de mudo,
talvez não por medo, ou o quer que fosse, na verdade era provavelmente por
preguiça e falta de fé em sua realização. Se não realiza, como poderá ficar
minimamente frustrado?
“é bem fácil pensar nisso, mas... pensar nisso não pode vir
do nada” riu, e sabia que iniciaria uma sistemática sessão de autoanálise
“merda, talvez se eu resolver essa garrafa mais rapidamente, dê tempo de parar
essa porra”.
Uma vez seu amigo escreveu um poema, sim,
uma vez... “muito bom inclusive!” dizia ele,
Mas o fato é:
o poema foi perdido, e como é sabido que não se pode escrever o mesmo bom poema duas vezes, nunca mais escreveu nada.
“acho
que ele não é o único assim” um bocado de cinza caiu no chão e fez uma montanha
pequena, épica e cinza ”quero fazer algo que ninguém pode fazer por mim, mas o
banheiro é muito longe, vou segurar” tinha plena consciência da sua dificuldade
de levantar e fazer o que precisa (em todos os aspectos da sua vida, sabe tão
bem que a vida continua que acaba só esperando ela continuar).
Recebeu uma mensagem de sua grande apatia
simpática, leu, e respondeu com dificuldade a mensagem dela.
“uma noitada vazia demanda mais noitadas
vazias, quando para, sente que a cabeça vai explodir, a fragilidade vem à tona”
encolheu-se tentando segurar, constatou que o cigarro apagou e acabou o vinho, então
cheirou a boca da garrafa.
O vinho não tem que ser bom, só tem que ser
vinho, o cheiro quase não muda, é sempre um
vapor etílico roxo que entorpece as narinas perfumando, e avermelha a face,
tem cheiro de porre, de paixão, ou de qualquer outra coisa do tipo.
“Meu colega perdeu o poema, será que ele tem
prisão de ventre?” riu “em que caralhos eu estou pensando?” sabia que tinha
alguma coisa em algum lugar, não sabia o que era “médio, definitivamente mérdio”.
Levantou e foi ao banheiro, claro, esperando a próxima
mensagem, e rindo pensando em quanto tempo demoraria para que ele mesmo perdesse seu poema.
domingo, 20 de maio de 2012
Floresta cibernética- Bruno Santana
Florestas cinéticas
transparecendo em folhas ciberbéticas
da rua de volta
da casa para escola.
Correndo no cascalho
na estória que não poderia ser errada
uma manga cai no chão
as meninas riem, se riem todas.
O sinal é antes de tudo
hora de correr pelo pátio
hora de escapar
de qualquer amarra católica.
Agora enfrento, até o mais valente de 1998
as esferas não são de chumbo
a aro forte azul não me espera
hoje coloco meus pés fora da terra.
Acerta como aço incandescente
a têmpora descoberta pelo cabelo certo
perto da casa do otário
um soco resvalado, me apagando pelo lado.
Cai, chorei, rastejei
o valentão sorria, gargalhava e as garotas acenavam
aproximaram-se para olhar o cadáver
e abraçar o canalha.
A aro forte azul chegou
de barba, botina, camisa e calça jeans
me arrancou pelo colarinho e jogou-me na garupa
contando histórias
de porque não brigar por um boi,
mas não sair nem por uma boiada.
domingo, 13 de maio de 2012
Parada- Tomás Fernandes
Nesse
exato momento estou sentado num banco numa parada de ônibus no meio
da estrada. A caneta de plástico na minha mão está gelada,
preferia ter um lápis um apontador e uma borracha, afinal sempre há
o medo de borrar um pouco essa pedaço de papel envelhecido que deve
ter encontrado no meio das minhas coisas. Na verdade já borrei um
pouco.
Um
velho está sentado ao meu lado. Ele fuma um cigarro e lê uma
revista, de um tipo qualquer que pode ser lida por qualquer pessoa
sentada num banco. O cigarro é de uma marca padrão, assim como o
meu e também minha caneta, meu caderno e até nossas roupas que nem
distinguem a nossa idade; ainda assim é o meu cigarro, a minha
caneta, o meu caderno e as minhas roupas, tenho certeza disso. Não
que isso faça diferença pra ele, que está apenas esperando o
ônibus. Ppara mim por outro lado faz toda a diferença do mundo a
minha caneta ter um sabor um pouco diferente daquelas que eu
mordiscava nas aulas de geografia do ginásio.
Talvez
já tenha conseguido explicar que na verdade não estou esperando
qualquer um dos ônibus que estão na minha frente. Na verdade espero
muito mais: ainda não sei qual eu vou pegar, embora devesse
continuar seguindo pelo mesmo que vai levar ao destino que eu deveria
ter escolhido quando o peguei. Claro, isso vai exigir um pouquinho de
trabalho: subir ás escondidas e procurar um lugar vazio, encontrar
algum motorista mais simpático que aceita um pequeno capricho
desses, ou algum mais solícito ao dinheiro que guardo no bolso e me
deixe sentar ao seu lado para ver a estrada (A estrada porque todas
as estradas enquanto estradas são sempre a mesma coisa).
Mas,
por que? Tem algum sentido nos meus atos? Gostaria tanto que tivesse,
que fosse uma vontade pura, algo impensado e necessário, mas na
verdade não sinto isso. Também não sinto querer chegar em algum
qualquer lugar, quero na verdade não saber onde vou chegar, espero
na verdade nunca chegar. Nada muito difícil, é só subir em
qualquer um deles e descer na próxima parada. Não em uma cidade por
favor, não quero identidade nenhuma, algum lugar como esse aqui.
Seria
tão mais óbvio se fosse um ato de coragem, de perseguir a liberdade
ou algo do gênero. Óbvio mas muito mais verdadeiro, muito
mais...seguro de uma maneira boa. Não, é a outra opção óbvia,
estou fugindo. Uma fuga completa, pura, a fuga pela fuga, quero
entrar nela e viver para todo o sempre(ou pelo menos no tempo que é
todo o sempre).
Minha
mulher me disse que para quem é corajoso tudo se resolve. Na verdade
aí o corajoso é aquele que se dispõe, o que consegue perceber o
momento, sua condição e ainda assim atravessar isso, para moldar
então o próximo instante. Eu sou um covarde, sempre fui um covarde,
só posso querer ser um covarde, á parte isso não tenho em mim
nenhum dos sonhos do mundo. Eu quero os sonhos do mundo, droga, só
que isso é um capricho grande demais pra um covarde, então agora eu
quero só o mundo.
Por
ser um covarde tomei todas as pílulas que suavizam o inferno, o
caos. Mulher, comida, dinheiro, livros... Mas cada vez o efeito era
menor e menor e menor, ao mesmo tempo em que isso criava sua própria
vida que se tornava então a minha própria. Uma vida externa a
mim... e há anos não há outra.
Toda
vida tem como objetivo acabar. Normalmente isso acontece quando falta
ar nos pulmões ou o sangue pára de circular. Comigo não aconteceu
nada disso. Um dia cheguei um pouco mais cedo do trabalho depois de
passar na casa da minha amante e quando entrei em casa descobri minha
mulher com o próprio amante. Eu já sabia, ela já sabia que eu
sabia e os outros também.
Eu
poderia muito bem ter dito um oi, desculpe por atrapalhar, que tal um
vinho? E quase fiz isso: antes de perceberem estava na cozinha
pegando uma garrafa, mas de repente resolvi seguir a bula à risca.
Quebrei a garrafa na cabeça dele, joguei minha mulher no chão e
senti o prazer da ira(que surgiu dentro dos conformes). Até cai de
bruços e comecei a soluçar no auge da autopiedade, que acalorava
todo meu corpo naquele momento. O homem foi embora e minha mulher em
vez de me abraçar pedindo desculpas, disse que eu era um idiota.
Enquanto
eu ficava falsamente estupefato com a resposta dela, minha esposa ia
jogando pela janela tudo o que era meu que encontrasse pela frente.
Um livro que ela mesma havia me dado uma semana antes, todas as
minhas roupas, meus cds, meus livros, quadros, fotografias... Parecia
que toda a minha vida ia caindo na rua e se despedançando sob as
rodas dos automóveis. E era impressionante a beleza daquilo, a
destruição de todas aquelas coisas sem o menor significado, cds
ouvidos só pelo ouvido, livros lidos só pelos olhos...
Foi
assim, perdi aquilo que eu chamava vida, não estou aqui para
procurar outra, ou para criar outra. Poderia ter me suicidado há
tempos, mas não consegui, posso destruir o corpo que sobrou, mas já
disse que sou covarde. Só quero me envolver totalmente na covardia
agora.
Não
vou escolher o ônibus. Agora boto uns óculos escuros, fecho os
olhos, coloco minha caneta sobre o caderno e a giro. Sinto com as
mãos para onde está apontando e vou cego até o ônibus. Ninguém
abordaria um cego, é claro. Agora abro os olhos, escolho um assento.
Por sorte não há ninguém.
Lados congratulados -Jéssica Dacquarica
Me brota instinto de projetar na sua mente
o que a barreira das anti ilusoes
anti prisoes e anti razoes
te impede de avistar
O meu Eu Sensato diz:
"eis que me surge perante o peito
mais um alguem que arranca
parte de mim e a personifica
numa audaciosa hiperbole ambulante
rabiscando o certo e o errado por onde passa
sem ter quem que por si o faça
sistematicamente intuido a mostrar
sua tese against the system
todavia, o meu Eu Procrastinador
proclama impetuosamente
a independencia da complexa personalidade singular
nao sobrevive o fim nem o inicio
celebre a vida
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Resposta á carta- Rolando Vezzoni
Não há como pensar forma melhor de responder uma carta sem um remetente, mas dois, e nenhum, do que um versar confuso e arrematado, um poema de anexos e conclusões.
O tempo corre, mas hei de tardar minha partida.
Fugir sem resoluções é arbitrário e covarde.
Sou demasiado travado, evito narrar-te o correr da vida.
Querida, sinto por dificultar, mas só assim agirei.
Estoico, estranho e estúpido, assim de verdade.
Despreocupado, sim, mas não indiferente.
Não se engane, procuro as mesmas coisas, mas mudo meu procurar.
Vou sempre te amar do meu jeito, eventual e distante,
é a moderada oscilação entre a sublimação e o tentar.
Dentre todos os muitos intempéries vitais,
clamo, agora, apenas por seu não agir, despretensiosamente.
Não sofra, mas, sou um melancólico sorridente,
um apático, muito apegado á meu direito de ser infeliz.
Não consigo te proteger, e não quero ser protegido,
se sou assim, não se martirize, pois amo esse sentimento...
...pela simples razão de sê-lo, e não quero tratamento.
Aí o paradoxo, meu problema é meu vetor, e sem ele fico perdido.
E sim, somos assim.
Nosso amor demanda conflito; vivo de experiência e desinteresse, me ajude com condescendência. É, sempre rotos e distintos.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
O sono e a cena- Rolando Vezzoni
Ele,
como algumas pessoas, chegou a um momento em sua vida em que percebeu
como ela segue inevitavelmente para uma infelicidade moderada e
suportável, então, tão logo, desenvolvera a pretensa capacidade de
esquecimento e inércia.
Era de tarde e estava sol, andava na rua e escondido em seus pensamentos momentaneamente irrelevantes, logo acordou do transe, e passou á análise minuciosa do interessantíssimo desenho formado pela chuva a pouco cessada no asfalto escuro.
O sol batia de escanteio e tornava as pequenas lagoas manchas reluzentes e irregulares envoltas de um vapor amarelado que chegava á uns dois palmos de altura, o que era suficiente para encenar o desaparecimento de parte da perna de qualquer pedestre que ficasse num ângulo interessante. Mentalizou como ficaria alguém andando naquela posição especifica, imaginava que iria compor uma imagem interessante e admirável.
"bem que podia ter alguém ali, seria absurdo, cinematográfico" sorriu por alguns segundos em seu 'nano delírio'... "na vida faltam bons personagens".
Se sentiu cansado e desistiu da ideia, sentou na guia e perdeu o olhar naquele incompleto momento.
-Ei! você!- nasce uma voz feminina, tão agradável quanto inquisitiva, de trás- Você está na frente do cenário ô cabeção!
Se inclinou preguiçosamente e olhou a fonte de balburdia de cabeça para baixo:
-É sério isso?
Rindo, ela responde:
-Eu tô fazendo um fotografia mental aqui, não quero lembrar disso com um panguão sentado na frente!
Tentou elaborar uma resposta inteligente, mas encontrou certa dificuldade por estar em baixo, numa posição em que lhe era possível uma análise sistemática e compenetrada da calcinha de sua bela e irritante nova companhia, era de fundo branco com bolinhas de diversas cores. "colorida", inferiu.
-...
-E então?- já menos entusiasmada, mas ainda jocosa - vai ficar olhando pra baixo do meu vestido, ou vai me responder?- disse sentando de forma que impossibilitou a continuidade do estudo que ele estava fazendo.
Mudando posição para facilitar o diálogo, sem deixar de "atrapalhá-la" comenta:
-Estranho, acabei de me incomodar com o fato de não ter ninguém ali, não confio muito no seu gosto pras coisas- tentando ser irônico, mas com pouca eficiência.
-Nem vem com essa, uma personagem demanda muitos quadros, vai ver você simplesmente precisa de alguém na sua “idealização de paisagem”, por carência sepá... bom, de qualquer forma, vai me dar o prazer de sua ausência?
-Nhé... to sossegado.- emenda se espreguiçando.
-larga de ser infantil!
-...- se calou levantando uma das sobrancelhas interrogativamente.
Se olharam sérios por alguns segundos, e em seguida deram breves gargalhadas, ela parou num sorriso tímido, mas estupendo, e olhou timidamente para o chão, ele bocejou e coçou a cabeça com sono, e depois voltou a contemplá-la.
-No que você tá pensando agora?
Até tentou, mas já era tarde demais para ele lembrar, voltara a seu olhar desconexo que manda os pensamentos para outra dimensão, quando retornou a vida, já nem lembrava da pergunta, tampouco do que estava pensando, ou se estava pensando.
-Num mundo sem protagonistas, olhemos para os bons coadjuvantes... sepá que eu tava pensando nas cores que vi agora pouco- disse meio apático, meio jovial.
-Minha calcinha é linda... e onde você quer chegar com isso?
-Hum... Acho que raramente quero chegar a algum lugar - disse em tom sóbrio, em seguida, abriu um sorriso simpático de lado e emendou-Té mais!
Levantou e foi embora sem olhar para trás, com bolas coloridas flutuando á sua volta.
Era de tarde e estava sol, andava na rua e escondido em seus pensamentos momentaneamente irrelevantes, logo acordou do transe, e passou á análise minuciosa do interessantíssimo desenho formado pela chuva a pouco cessada no asfalto escuro.
O sol batia de escanteio e tornava as pequenas lagoas manchas reluzentes e irregulares envoltas de um vapor amarelado que chegava á uns dois palmos de altura, o que era suficiente para encenar o desaparecimento de parte da perna de qualquer pedestre que ficasse num ângulo interessante. Mentalizou como ficaria alguém andando naquela posição especifica, imaginava que iria compor uma imagem interessante e admirável.
"bem que podia ter alguém ali, seria absurdo, cinematográfico" sorriu por alguns segundos em seu 'nano delírio'... "na vida faltam bons personagens".
Se sentiu cansado e desistiu da ideia, sentou na guia e perdeu o olhar naquele incompleto momento.
-Ei! você!- nasce uma voz feminina, tão agradável quanto inquisitiva, de trás- Você está na frente do cenário ô cabeção!
Se inclinou preguiçosamente e olhou a fonte de balburdia de cabeça para baixo:
-É sério isso?
Rindo, ela responde:
-Eu tô fazendo um fotografia mental aqui, não quero lembrar disso com um panguão sentado na frente!
Tentou elaborar uma resposta inteligente, mas encontrou certa dificuldade por estar em baixo, numa posição em que lhe era possível uma análise sistemática e compenetrada da calcinha de sua bela e irritante nova companhia, era de fundo branco com bolinhas de diversas cores. "colorida", inferiu.
-...
-E então?- já menos entusiasmada, mas ainda jocosa - vai ficar olhando pra baixo do meu vestido, ou vai me responder?- disse sentando de forma que impossibilitou a continuidade do estudo que ele estava fazendo.
Mudando posição para facilitar o diálogo, sem deixar de "atrapalhá-la" comenta:
-Estranho, acabei de me incomodar com o fato de não ter ninguém ali, não confio muito no seu gosto pras coisas- tentando ser irônico, mas com pouca eficiência.
-Nem vem com essa, uma personagem demanda muitos quadros, vai ver você simplesmente precisa de alguém na sua “idealização de paisagem”, por carência sepá... bom, de qualquer forma, vai me dar o prazer de sua ausência?
-Nhé... to sossegado.- emenda se espreguiçando.
-larga de ser infantil!
-...- se calou levantando uma das sobrancelhas interrogativamente.
Se olharam sérios por alguns segundos, e em seguida deram breves gargalhadas, ela parou num sorriso tímido, mas estupendo, e olhou timidamente para o chão, ele bocejou e coçou a cabeça com sono, e depois voltou a contemplá-la.
-No que você tá pensando agora?
Até tentou, mas já era tarde demais para ele lembrar, voltara a seu olhar desconexo que manda os pensamentos para outra dimensão, quando retornou a vida, já nem lembrava da pergunta, tampouco do que estava pensando, ou se estava pensando.
-Num mundo sem protagonistas, olhemos para os bons coadjuvantes... sepá que eu tava pensando nas cores que vi agora pouco- disse meio apático, meio jovial.
-Minha calcinha é linda... e onde você quer chegar com isso?
-Hum... Acho que raramente quero chegar a algum lugar - disse em tom sóbrio, em seguida, abriu um sorriso simpático de lado e emendou-Té mais!
Levantou e foi embora sem olhar para trás, com bolas coloridas flutuando á sua volta.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
carta á... - Rolando Vezzoni
Não há como pensar forma mais eficiente de correr uma carta que não será lida, do que um versar dolorido, e sem remetente, um poema de máximas e aforismos.
A manhã já é passado, e vou-me empacotando... tenho de ir.
Prometo que não guardarei razões, apenas a convicção.
Descartei já as culpas simuladas,
junto com os conflitos e torturas.
Lembrarei de bons momentos, e com eles hei de rir.
Pouco importa o pouco importante,
e sei por já ter sido o bastante.
Os traumas eu já tenho... encontrar as frustrações é o intuito.
tenho de ir, a vida figurou-se assim: amo-te muito, odeio-te muito.
A complicada e intensa convivência, é deveras complicada e intensa...
Por isso me afasto desse berço teatral,
para que o meu passado de amor e raiva propensa,
o seja, mas que não vire uma guilhotina umbilical.
Um adeus simbólico nunca é um nunca mais,
mas ainda assim, até nunca mais...
pois...
minha latência me espera com um mundo, e eu quero vê-lo.
entenda, enfim.
A distância provem, não de culpa, mas de ser, e havemos de ser, rotos e distintos.
A manhã já é passado, e vou-me empacotando... tenho de ir.
Prometo que não guardarei razões, apenas a convicção.
Descartei já as culpas simuladas,
junto com os conflitos e torturas.
Lembrarei de bons momentos, e com eles hei de rir.
Pouco importa o pouco importante,
e sei por já ter sido o bastante.
Os traumas eu já tenho... encontrar as frustrações é o intuito.
tenho de ir, a vida figurou-se assim: amo-te muito, odeio-te muito.
A complicada e intensa convivência, é deveras complicada e intensa...
Por isso me afasto desse berço teatral,
para que o meu passado de amor e raiva propensa,
o seja, mas que não vire uma guilhotina umbilical.
Um adeus simbólico nunca é um nunca mais,
mas ainda assim, até nunca mais...
pois...
minha latência me espera com um mundo, e eu quero vê-lo.
entenda, enfim.
A distância provem, não de culpa, mas de ser, e havemos de ser, rotos e distintos.
domingo, 25 de março de 2012
Inferindo- Rolando Vezzoni
Vejo-me impedido por uma barreira.
Parto da pergunta: qual que é?
Medo é demasiado arbitrário,
não quero clichê, muito pelo contrário...
Indago novamente: será que é?
Bom, eu sei que falta ímpeto.
Isso falta, mas não sera esse o muro em si?
Estranho isso, eu já transpassei esse teto...
Então pergunto: se já subi, porque desci?
Reelaboro: se vim e vi, porque perdi?
Lembro que já falei, mas ninguém ouviu...
É isso! Desci por que recebi um "não entendi"!
Ah! concluído: Bloqueei, porque ninguém entendeu, e ninguém viu.
Parto da pergunta: qual que é?
Medo é demasiado arbitrário,
não quero clichê, muito pelo contrário...
Indago novamente: será que é?
Bom, eu sei que falta ímpeto.
Isso falta, mas não sera esse o muro em si?
Estranho isso, eu já transpassei esse teto...
Então pergunto: se já subi, porque desci?
Reelaboro: se vim e vi, porque perdi?
Lembro que já falei, mas ninguém ouviu...
É isso! Desci por que recebi um "não entendi"!
Ah! concluído: Bloqueei, porque ninguém entendeu, e ninguém viu.
sexta-feira, 16 de março de 2012
toda náusea será castigada- Bruno Santana
Todos os caras que vão ficar ricos crescem estranhos;
de barba mal feita ou muito bem feita;
com cabelos desgrenhados ou perfeitamente arrumados, mas
invariavelmente tratam muito bem das unhas.
Todas as garotas que serão felizes crescem sem muitas esperanças,
e não beijam os caras legais das festas e
não ficam bêbadas e
lavam a louça do almoço.
Foi uma garota quem me disse isso
em uma dessas festas de pessoas tristes
em um desses porres sem futuro
em um sábado sem pretensão.
Ela chorava e borrava a maquiagem
e era linda como o demônio;
o anjo da luz descido na terra,
ela soluçava e gargalhava
entre o rímel e o batom e sua jaqueta de couro
Ela dizia que não seria feliz
amaldiçoava seu destino
e todos os lapsos de felicidade instantânea.
Culpava Dylan e Godard e Bardot e todos os existencialistas
e todos aqueles que um dia escreveram
ou cantaram
e trouxeram ao mundo a maldição.
A maldição da juventude:
ser feliz antes do tempo
queimar antes de iluminar.
de barba mal feita ou muito bem feita;
com cabelos desgrenhados ou perfeitamente arrumados, mas
invariavelmente tratam muito bem das unhas.
Todas as garotas que serão felizes crescem sem muitas esperanças,
e não beijam os caras legais das festas e
não ficam bêbadas e
lavam a louça do almoço.
Foi uma garota quem me disse isso
em uma dessas festas de pessoas tristes
em um desses porres sem futuro
em um sábado sem pretensão.
Ela chorava e borrava a maquiagem
e era linda como o demônio;
o anjo da luz descido na terra,
ela soluçava e gargalhava
entre o rímel e o batom e sua jaqueta de couro
Ela dizia que não seria feliz
amaldiçoava seu destino
e todos os lapsos de felicidade instantânea.
Culpava Dylan e Godard e Bardot e todos os existencialistas
e todos aqueles que um dia escreveram
ou cantaram
e trouxeram ao mundo a maldição.
A maldição da juventude:
ser feliz antes do tempo
queimar antes de iluminar.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Réquiem da pornochanchada- Rolando Vezzoni
O povo leva a sério toda piada
Miou da ginga e da gargalhada.
Brinca de sério e competente,
me lembra é velho doente.
Parece até que linha reta,
é virtude da mais correta,
que os passos ébrios da molecada,
viraram molequice e não valem nada.
Moralismo tosco e desenfreado,
é catalizado na internet...
Resultado?
Pentelhação deliberada, de ateu, evangélico e patricete.
Engraçado que no país da pornochanchada,
esqueceram da grande sacada.
Que cagar opinião parece que valer muito,
mas no fim não vale nada.
Miou da ginga e da gargalhada.
Brinca de sério e competente,
me lembra é velho doente.
Parece até que linha reta,
é virtude da mais correta,
que os passos ébrios da molecada,
viraram molequice e não valem nada.
Moralismo tosco e desenfreado,
é catalizado na internet...
Resultado?
Pentelhação deliberada, de ateu, evangélico e patricete.
Engraçado que no país da pornochanchada,
esqueceram da grande sacada.
Que cagar opinião parece que valer muito,
mas no fim não vale nada.
domingo, 4 de março de 2012
O demente- Rolando Vezzoni
O
sujeito normal era normal. Não muito mais poderia ser dito á
princípio... Solteiro? Sim, mas não carente... Ébrio?
Eventualmente, mas nada incomum... Trabalho ou estudo? Sim, nada
muito vibrante.
“Já fui demente...
Não convivi com meus parentes após a concussão por não ter coragem de encontrar minhas verdades em casa.
Com minha lesão perdi a capacidade de controlar as minhas impressões do mundo, não conseguia mais mentir, mas, falar a verdade para os outros foi só meu primeiro sintoma, perdi também a minha capacidade de mentir para mim mesmo, e uma vez assim, nunca mais poderia reaprende-la.
Sou um cara normal, normal demais, acho que sou assim pois eu sempre tive medo dos outros, não do que me diriam, mas dos conflitos... com minha sequela, percebi que não presto atenção em coisas “boas” nos outros, vejo as diferenças (principalmente físicas) “negativas”.
Porque? Não tenho certeza, mas invejo quem não tem a escolha de ser comum, ou que não tem essa tendência.
Vivi minha vida sem ser ninguém, talvez sempre tenha querido ser alguém, mas nunca tenha tido coragem para isso... me coloquei numa camisa de força, quem é o homem que odeia os diferenciais que almeja, e que se prende a uma existência insossa, que odeia?
Nunca fui forte para escolher para onde ia, sou duas metades assustadas e recalcadas que não consigo juntar.
Achava que a mentira servia para facilitar as nossas relações, mas no final, creio que me perdi na mentira em que vivi, e assim viveria muito tempo, como muitos. Mas meu acidente me pois em xeque.
Ou, melhor, xeque-mate.”
Andava para sua casa em um dia normal, estava
pensando em algo que não era importante, só queria chegar em casa e
comer um sanduíche.
Durante a elaboração mental meticulosa do seu sanduíche que fazia em sua epopeia até a esquina, aconteceu algo que se não houvesse acontecido, não o faria merecedor de um conto a seu respeito. O que? Bom, ele escorregou numa bela peça de coco canino, o que já é interessante por ser cômico, mas além disso bateu a “cabecinha” bem forte na guia.
Acordou num quarto branco, inferiu que era um hospital, pois lembrava da merda e da queda. Olhou a sua volta, estava com dor de cabeça e desorganizado, provavelmente por não ter comido o sanduíche que tanto pretendia, ou talvez tivesse algo a ver com a pancada, não sabia dizer.
-Ele acordou! Ele acordou!- gritou sua “mamãe”.
Entrou todo o grupo de lagartos preocupadíssimos com sua saúde, e uma enfermeira com um decote protuberante:
-como você tá?
-cabeça dura a sua em rapaz? Hahahah!
-o que aconteceu? Contaí man!
Sua cabeça latejava ao escutar o burburinho, pra cada comentário uma pulsada.
-Huum, huuuuuum!...-limpou a garganta com o intuito de abrir uma brecha, e esperou o silêncio se estabelecer, tomou ar para tranquilizar aqueles que demandavam.- ... nossa. Que puta enfermeira gostosa!
Os olhares foram de encontro à enfermeira e ricochetearam de volta, mas antes que qualquer um pudesse recriminá-lo pelo mal elaborado elogio, a própria gostosa cortou o silêncio:
-ahm...bom, obrigado, hahaha...- abriu um sorriso calmo e prosseguiu.- Não fiquem ofendidos, o doutor me avisou que algo assim poderia acontecer, ele está chegando e explicará tudo.
O doutor chegou e explicou todo o charme do acidente : a área lesada do encéfalo era “responsável” pela censura (o tal do “desconfiômetro” que as pedagogas de quinta tanto falam nas escolas), é algo assim, nós pensamos coisas ao longo do nosso dia, e não dizemos algumas por sabermos que fogem ao comum em termos de aceitável, ou seja, vemos uma funcionária de hospital com atributos físicos interessantes, mas não comentamos isso... Porém no caso, nosso herói perdeu completamente essa capacidade, como um sujeito muito alcoolizado pode perder parcialmente durante o porre.
-pô, que merda isso! Agora eu to completamente fudido, tipo, eu não posso sair de casa, vou acabar apanhando!
-não é tão raro quanto parece, e depois de alguns anos o cérebro geralmente usa outra área para compensar, e você volta ao seu ao normal.
-e o que eu faço até lá?! Fala aí seu careca! Ando com uma placa pendurada no meu pescoço escrito “demente”?!
-ãaaa...- o médico fez uma pausa debiloide para pensar.-Eu não sou careca, só tenho cabelo ralo!-sorriu satisfeito com sua brilhante colocação- Bom... E você teve sorte de não ter nenhuma outra disfunção, você poderia estar babando com o rosto parcialmente paralisado, então tente encarar isso da melhor maneira possível.
Passaram-se alguns dias antes de sair da caverna, saiu pois percebeu que teria que aprender a se virar e retomar sua vida, suas sublimes atividades cotidianas.
Qual o melhor lugar para recomeçar a rotina, o local que mais drena sua energia enquanto lhe fornece colegas igualmente miseráveis com os quais se é possível estabelecer relações humanas? Logicamente, o trampo.
Vestiu roupas discretas e foi à sua primeira experiência com um otimismo razoável e tencionando ficar o mais transparente possível, ficaria quieto e faria as macaquices que lhe fossem designadas, o que poderia dar errado?
Chegou na entrada, respirou fundo e entrou.
-SURPRESA! ESTAMOS MUITO FELIZES DE VOCÊ ESTAR DE VOLTA!
Sentiu sua pálpebra direita se contrair e seu esfíncter dar um nó, percebeu tarde demais a situação em que se metera, a saia justa, e os conflitos que poderiam sair dali, já que havia num escritório um homem que não mente, provido de todo um material de anos de compostura acumulados e prontos para serem lançados impiedosamente.
Mas o que seguiu foi muito inusitado, ele era um sujeito normal, mas não um sujeito burro, assim sendo, não se deixaria simplesmente conversar sabendo que muito provavelmente comentaria a respeito da enorme pinta no rosto do chefe ou quão ridícula era a gravata do mesmo (o que torna o conto bem menos engraçado).
Primeiro começou a assoviar.
As indagações se seguiram, “o que há?”, “você não consegue..?”, e todas as perguntas estúpidas possíveis, realmente não tinha jeito.
Continuou assoviando e procurando alguém com quem conseguisse conversar, alguém que suportasse mais tranquilamente a esse tipo de situação, que ele fosse capaz de olhar. Afobado e se esquivando do espelho que se configurava nos focinhos alheios, aos poucos percebendo como sua nova sinceridade era bizarra. Seu foco caminhava para o desagradável, uma lente filtra tudo àquilo não escroto, um aleijado, que abiu um rombo capaz de liberar toda a amargura de uma vida inexpressiva.
Em seu desespero, percebendo quão mal sucedido foi seu contato com o mundo, preso naquele labirinto, perdido nos corredores em loop, foi procurar a saída.
Acordou sentado na guia recém pintada, onde havia estourado os miolos algum tempo atrás.
Era a guia mais branca, inconsciente de quão substanciosa foi sua participação nessa história toda.
Riu num tom histérico...
Saiu de casa, com uma placa pendurada em seu pescoço, nela pintada: “demente”, foi a despedida de nosso herói, pois aqueles que o conheciam, não o viram mais.
Transeuntes relataram que o tão caricato protagonista foi visto em diferentes lugares por algumas semanas vagando incógnito, vivendo como um sem teto com o notório hábito de ofender os pedestres.
Foi encontrado morto por espancamento (nada surpreendente), e só identificaram o corpo pois havia uma carta nas roupas que vestia, mencionava a família com nomes e endereço, segue a carta:
Durante a elaboração mental meticulosa do seu sanduíche que fazia em sua epopeia até a esquina, aconteceu algo que se não houvesse acontecido, não o faria merecedor de um conto a seu respeito. O que? Bom, ele escorregou numa bela peça de coco canino, o que já é interessante por ser cômico, mas além disso bateu a “cabecinha” bem forte na guia.
Acordou num quarto branco, inferiu que era um hospital, pois lembrava da merda e da queda. Olhou a sua volta, estava com dor de cabeça e desorganizado, provavelmente por não ter comido o sanduíche que tanto pretendia, ou talvez tivesse algo a ver com a pancada, não sabia dizer.
-Ele acordou! Ele acordou!- gritou sua “mamãe”.
Entrou todo o grupo de lagartos preocupadíssimos com sua saúde, e uma enfermeira com um decote protuberante:
-como você tá?
-cabeça dura a sua em rapaz? Hahahah!
-o que aconteceu? Contaí man!
Sua cabeça latejava ao escutar o burburinho, pra cada comentário uma pulsada.
-Huum, huuuuuum!...-limpou a garganta com o intuito de abrir uma brecha, e esperou o silêncio se estabelecer, tomou ar para tranquilizar aqueles que demandavam.- ... nossa. Que puta enfermeira gostosa!
Os olhares foram de encontro à enfermeira e ricochetearam de volta, mas antes que qualquer um pudesse recriminá-lo pelo mal elaborado elogio, a própria gostosa cortou o silêncio:
-ahm...bom, obrigado, hahaha...- abriu um sorriso calmo e prosseguiu.- Não fiquem ofendidos, o doutor me avisou que algo assim poderia acontecer, ele está chegando e explicará tudo.
O doutor chegou e explicou todo o charme do acidente : a área lesada do encéfalo era “responsável” pela censura (o tal do “desconfiômetro” que as pedagogas de quinta tanto falam nas escolas), é algo assim, nós pensamos coisas ao longo do nosso dia, e não dizemos algumas por sabermos que fogem ao comum em termos de aceitável, ou seja, vemos uma funcionária de hospital com atributos físicos interessantes, mas não comentamos isso... Porém no caso, nosso herói perdeu completamente essa capacidade, como um sujeito muito alcoolizado pode perder parcialmente durante o porre.
-pô, que merda isso! Agora eu to completamente fudido, tipo, eu não posso sair de casa, vou acabar apanhando!
-não é tão raro quanto parece, e depois de alguns anos o cérebro geralmente usa outra área para compensar, e você volta ao seu ao normal.
-e o que eu faço até lá?! Fala aí seu careca! Ando com uma placa pendurada no meu pescoço escrito “demente”?!
-ãaaa...- o médico fez uma pausa debiloide para pensar.-Eu não sou careca, só tenho cabelo ralo!-sorriu satisfeito com sua brilhante colocação- Bom... E você teve sorte de não ter nenhuma outra disfunção, você poderia estar babando com o rosto parcialmente paralisado, então tente encarar isso da melhor maneira possível.
Passaram-se alguns dias antes de sair da caverna, saiu pois percebeu que teria que aprender a se virar e retomar sua vida, suas sublimes atividades cotidianas.
Qual o melhor lugar para recomeçar a rotina, o local que mais drena sua energia enquanto lhe fornece colegas igualmente miseráveis com os quais se é possível estabelecer relações humanas? Logicamente, o trampo.
Vestiu roupas discretas e foi à sua primeira experiência com um otimismo razoável e tencionando ficar o mais transparente possível, ficaria quieto e faria as macaquices que lhe fossem designadas, o que poderia dar errado?
Chegou na entrada, respirou fundo e entrou.
-SURPRESA! ESTAMOS MUITO FELIZES DE VOCÊ ESTAR DE VOLTA!
Sentiu sua pálpebra direita se contrair e seu esfíncter dar um nó, percebeu tarde demais a situação em que se metera, a saia justa, e os conflitos que poderiam sair dali, já que havia num escritório um homem que não mente, provido de todo um material de anos de compostura acumulados e prontos para serem lançados impiedosamente.
Mas o que seguiu foi muito inusitado, ele era um sujeito normal, mas não um sujeito burro, assim sendo, não se deixaria simplesmente conversar sabendo que muito provavelmente comentaria a respeito da enorme pinta no rosto do chefe ou quão ridícula era a gravata do mesmo (o que torna o conto bem menos engraçado).
Primeiro começou a assoviar.
As indagações se seguiram, “o que há?”, “você não consegue..?”, e todas as perguntas estúpidas possíveis, realmente não tinha jeito.
Continuou assoviando e procurando alguém com quem conseguisse conversar, alguém que suportasse mais tranquilamente a esse tipo de situação, que ele fosse capaz de olhar. Afobado e se esquivando do espelho que se configurava nos focinhos alheios, aos poucos percebendo como sua nova sinceridade era bizarra. Seu foco caminhava para o desagradável, uma lente filtra tudo àquilo não escroto, um aleijado, que abiu um rombo capaz de liberar toda a amargura de uma vida inexpressiva.
Em seu desespero, percebendo quão mal sucedido foi seu contato com o mundo, preso naquele labirinto, perdido nos corredores em loop, foi procurar a saída.
Acordou sentado na guia recém pintada, onde havia estourado os miolos algum tempo atrás.
Era a guia mais branca, inconsciente de quão substanciosa foi sua participação nessa história toda.
Riu num tom histérico...
Saiu de casa, com uma placa pendurada em seu pescoço, nela pintada: “demente”, foi a despedida de nosso herói, pois aqueles que o conheciam, não o viram mais.
Transeuntes relataram que o tão caricato protagonista foi visto em diferentes lugares por algumas semanas vagando incógnito, vivendo como um sem teto com o notório hábito de ofender os pedestres.
Foi encontrado morto por espancamento (nada surpreendente), e só identificaram o corpo pois havia uma carta nas roupas que vestia, mencionava a família com nomes e endereço, segue a carta:
“Já fui demente...
Não convivi com meus parentes após a concussão por não ter coragem de encontrar minhas verdades em casa.
Com minha lesão perdi a capacidade de controlar as minhas impressões do mundo, não conseguia mais mentir, mas, falar a verdade para os outros foi só meu primeiro sintoma, perdi também a minha capacidade de mentir para mim mesmo, e uma vez assim, nunca mais poderia reaprende-la.
Sou um cara normal, normal demais, acho que sou assim pois eu sempre tive medo dos outros, não do que me diriam, mas dos conflitos... com minha sequela, percebi que não presto atenção em coisas “boas” nos outros, vejo as diferenças (principalmente físicas) “negativas”.
Porque? Não tenho certeza, mas invejo quem não tem a escolha de ser comum, ou que não tem essa tendência.
Vivi minha vida sem ser ninguém, talvez sempre tenha querido ser alguém, mas nunca tenha tido coragem para isso... me coloquei numa camisa de força, quem é o homem que odeia os diferenciais que almeja, e que se prende a uma existência insossa, que odeia?
Nunca fui forte para escolher para onde ia, sou duas metades assustadas e recalcadas que não consigo juntar.
Achava que a mentira servia para facilitar as nossas relações, mas no final, creio que me perdi na mentira em que vivi, e assim viveria muito tempo, como muitos. Mas meu acidente me pois em xeque.
Ou, melhor, xeque-mate.”
Clamor solitário- Bruno Santana
Sem que a luz atrapalhe, escrevo.
Linhas do que vi, não vi
Vivi e senti,
Mas, é claro, isto não é poesia.
Sem que o caos da cidade perturbe
Mergulho na penumbra de homem só
Orgulhoso, inteligente e sisudo
Mas, é claro, isto não é atributo de poeta.
Sem que as vozes de outrem falem
A minha canta e grita
Orações, canções e hinos
Mas, é claro, isto não é uma melodia.
Sem que o dinheiro me acanhe
ou excite
Penso no que deve ser pensado
Mas, é claro, isto não é assunto.
É claro, fica claro, sempre foi claro
No escuro, sem a fluorescência
Me entorpeço de ideias sólidas
Abraçando a realidade fluida.
Nela, descubro que os melhores poemas
não foram escritos
As cores mais bonitas
são oculares
A melhor canção
Não vem do coração.
A mais rica melodia
emana dos elétrons
cátions e ânions
substâncias, orgânicas ou não.
Não, não é ciência
Não é poesia
Não é arte
É o clamor solitário,
de outra alma perdida.
Linhas do que vi, não vi
Vivi e senti,
Mas, é claro, isto não é poesia.
Sem que o caos da cidade perturbe
Mergulho na penumbra de homem só
Orgulhoso, inteligente e sisudo
Mas, é claro, isto não é atributo de poeta.
Sem que as vozes de outrem falem
A minha canta e grita
Orações, canções e hinos
Mas, é claro, isto não é uma melodia.
Sem que o dinheiro me acanhe
ou excite
Penso no que deve ser pensado
Mas, é claro, isto não é assunto.
É claro, fica claro, sempre foi claro
No escuro, sem a fluorescência
Me entorpeço de ideias sólidas
Abraçando a realidade fluida.
Nela, descubro que os melhores poemas
não foram escritos
As cores mais bonitas
são oculares
A melhor canção
Não vem do coração.
A mais rica melodia
emana dos elétrons
cátions e ânions
substâncias, orgânicas ou não.
Não, não é ciência
Não é poesia
Não é arte
É o clamor solitário,
de outra alma perdida.
domingo, 22 de janeiro de 2012
(sem título)- Rolando Vezzoni
Reavendo os cacos dos últimos ventos,
noto-me preso a um cambalear incessante.
Uma ressaca de 100 anos?
(que se não o é, ao menos parece).
Retratos de tudo que merece,
ou que foi, ainda que pouco, interessante,
dos bons e péssimos, hei de lembrar-me desses tantos.
Não creio que haja alguma cicatriz que suma,
mas tomo por certo que não há dor insuperável,
e o bem vivido na atmosfera ulula.
Cada segundo passado é o passo em si, o cambalear incessante da minha ressaca de 100 anos.
noto-me preso a um cambalear incessante.
Uma ressaca de 100 anos?
(que se não o é, ao menos parece).
Retratos de tudo que merece,
ou que foi, ainda que pouco, interessante,
dos bons e péssimos, hei de lembrar-me desses tantos.
Não creio que haja alguma cicatriz que suma,
mas tomo por certo que não há dor insuperável,
e o bem vivido na atmosfera ulula.
Cada segundo passado é o passo em si, o cambalear incessante da minha ressaca de 100 anos.
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