segunda-feira, 19 de julho de 2010

cheiro de saudade- Lígia Fernandes

Saudade disso, falta daquilo.
A infância, o tempo sem preocupações.

O cheirinho de chuva, de grama molhada,
da casa da vó, de tênis novo,
de pipoca doce, de vela apagada.

O barulho do pedal da bicicleta girando ao contrário,
da bola de borracha quicando no asfalto.

E ele, super herói tão alto,
em cima do armário,
a pular e voar pelo quarto.

(sem título)- Giovanna Palermo

Eu vi o ponteiro dos minutos
andar uma unidade pra trás
e foi nesse minuto que ganhei de vida
que escrevi um poema lento
em que um minuto, é um minuto demais.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Retrato de um menino-homem malfadado.- Francisco Knulp

A primeira rajada do vento frio não leva-lhe.
Tampouco a segunda, sendo essa mais forte.
Agora antes das próximas já se perguntava:
-quantas outras ainda virão?

Já a próxima, vinda de surpresa, levou-lhe
Esta que procedeu já nem do mesmo jeito, lembrava a morte.
E enquanto via-se derrubado, indagava:
-e agora, fodeu-se tudo então?

Agora este, que seria logo visto como cretino, levantou-se, e lutou por bravos e não breves momentos (estes não importam)... Nada tão demais, mas nem pouco como lhe foi retratado.

Caiu.
Caiu, não... Despencou.

Agora viu-se resolvido, abiu uma concha e lá enfiou-se o imbecil, que agora já não mostrou-se sorridente, pois sabe-se dele como um sujeito revoltado.

Este caiu novamente, sempre errado... Burro!

Agora a paisana, por incrível que pareça... É, e foi despencando que viu-se despertar, lembra-se de sua infância, embora agora de armadura e olhos abertos... Triste fazer dessa criança um homem. Ainda mais se adulto, esse não encontra-se liberto, tampouco, feliz.

(sem título)- Pedro Menezes

A tristeza nunca está sozinha e hoje veio me visitar. Chegou de surpresa, sem avisar. Já coloquei a vassoura atrás da porta para ver se ela não demora.

Eu digo pra ela ir embora, que sou forte, posso me virar. Mas ela não ouve. Fica ali, parada. E vai aonde eu vou. Até nos meus sonhos ela aparece. Por que veio? Vai visitar outra pessoa. Você tem tantos amigos.

Ela não tem amor próprio. Vive pelos cantos, sendo rejeitada por quase todo mundo. Ela não se importa. Sabe que vai embora mais cedo ou mais tarde.

Mas antes de visitar outra pessoa, ela faz questão de ouvir as músicas mais tristes, lembrar dos momentos mais nostálgicos, ler os trechos mais densos, assistir aos filmes mais pesados.

Não sei o que fazer para expulsá-la. Já bebi, já chorei, mas ela insiste em me acompanhar. Vive me fazendo olhar pra trás, colocando suas escamas em mim.

A tristeza é um vírus altamente contagioso, deixa todo mundo em volta pra baixo, de cama. Estou de quarentena, isolado, não quero passá-la pra ninguém. Porque hoje eu quero morrer com ela.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

o ateu e a tia- Rolando Vezzoni


Havia uma tia jogando água benta nas pessoas na tal da paróquia(já digo agora, não que houvesse nenhuma necessidade de ele ter feito isso, antes deveria ter tomado seu vinho quente pelo-menos, embora fosse de todo divertido fazê-lo)... água benta essa que respingou-se por todo o rosto dele (ironicamente não se incomodou de inicio) e no instante em que percebeu que essas gotas de água eram bentas pulou e gritou satiricamente “ai! Isso queima! Parem!”, o que por alguns segundos lhe pareceu uma brincadeira muito legal (e a mim também caro leitor), até aquele momento em que percebeu que os homens benzidos não eram de bem, e estavam se aproximando satãnicamente.
Isso pouco antes do agora ( nesse momento indefinido e irrelevante torna-se atemporal) que lembro daquela imagem de credulice que havia visto antes do episódio relatado.
Meio de tarde, ainda sol, e com um céu particularmente azul com poucas nuvens, sendo que estas poucas tem aspecto ‘’fofo’’, e enquanto aproveitava para olhar as coisas na rua, enquanto a descia vi uma empregada domestica que trabalha em uma das casas, uma senhora de mais de cinqüenta anos e com aspecto de todo jovial.
-bom dia!
-bom dia!- respondeu com um sorriso no rosto, este eu respondi com outro sorriso.- é um belo dia esse que deus nos deu, ‘’né‘’?(eu aprendi a escrever “Ele” e “Deus” num colégio presbiteriano que estudei, embora sempre tenha me incomodado a literatura e a gramática sofrerem esse incômodo unilateral, portanto vetei esse formato em meus textos)
Penso até agora nisso, passam ela e tantas outras pessoas o dia agradecendo a algo ou alguém que não se tem certa a existência... Sendo ainda essa incerteza muito improvável, e não só isso, controversa.
-É! - tentei ser simpático, não ofende-la com minha vida de “pecador” ,“descrente”, etc...- se houver algo mesmo...
-LÒGICO que tem...- disse apoiando o queixo nas mãos que se acomodaram na ponta do cabo da vassoura, Se não tivesse deus agente não existiria! Não ia ver as pessoas que gostamos novamente!
-ah, verdade, desculpa... - com um sorriso simpático no rosto.
Não, não mudou meu ponto de vista, se é isso que pensa, mas eu não iria discutir a crença otimista daquela mulher, não existe um porque nisso, que ela morra acreditando que virá algo, é melhor para ela. MESMO.
Mas nesse tal de agora entendi melhor aquela tia que queria trazer o ‘’bem’’ e ‘’deus’’ para as pessoas... Não acredito nele, mas agora entendo... Ter-lo é acreditar que não haverá o fim e tampouco a saudade. Eu consigo respeitar isso, esse é um “ópio” que deve ser bom para uma vida... Mas o barato passou muito cedo em mim, ainda somos todos humanos.

(sem título)- Lígia Fernandes

Uma escuridão, um breu profundo. E cá estou retirando de meu entorno todo e qualquer tipo de distração. Aprendi que penso melhor no escuro, que as melhores idéias surgem na madrugada. Pois vêm a chuva de problemas e pancadas de sofrimentos. Bate a tristeza e, em seguida, aquela vontade momentânea insaciável de querer você. Simplesmente te ver. Ouvir tua voz, sentir teu cheiro. Pronto, passou. A tristeza voltou e veio junto um sentimento de solidão.

Me sinto tão só e está tão escuro. Estou eu, sentada no canto da cama apoiada na parede e coberta por uma manta, sozinha e iluminada pela luz da tela do note book. Nem que quisesse seria capaz de te ver, pois está escuro; queria poder sentí-lo, quero tocá-lo. E você pouco sabe isso... Queria que soubesse. Sinto um emaranhado na garganta, quero agora a claridade e enxergá-lo para poder contar-lhe esse meu desejo. Mas sou louca, não caia nessa! Nem nos conhecemos. Então façamos o seguinte: conheçamo-nos. Conversemos, troquemos idéias. Quero saber o que gosta e o que desgosta. Quero poder novamente sentir um abraço seu. Um abraço, mais um; que não seja o único muito menos o último.

Mas não era essa uma vontade momentânea? Talvez os momentos tenham se esticado porque ainda te quero.

Chega! Nada disso é certo. Uma paixão idealizada [totalmente] - passo o dia sentada em frente ao espelho imaginando como seria uma conversa com você. Isso não é certo, não é normal. Já disse que sou louca... Chega.

terça-feira, 6 de julho de 2010

torpor- Giovana Vilela

Olho para os dois lados: nenhum carro passando. Atravesso a rua correndo e entro em casa, sentindo o sangue percorrer entre as veias de todo o corpo. É como se tambores estivessem rufando dentro de mim, da cabeça aos pés. Sento na poltrona, não sem antes me segurar em suas bordas para evitar cair. Ainda consigo sentir a gota de suor que brota no colo do meu peito e vai apressada encontrar as tramas do tecido da blusa, desfazendo-se por lá. Olho para frente e não vejo nada senão a escuridão. O torpor na minha cabeça faz os pensamentos girarem, indo de lembranças do mês passado para os acontecimentos de hoje de manhã. Escuto vozes em meio dessa vertigem, só que vindas de fora, do patamar de cima. E só fazem gritar em meus ouvidos, juntas com um repetido toque que fica martelando insistentemente, transformando minha mente numa granada que acabou de perder seu pino, pronta para explodir. Mas o que me tira do sério, na verdade, são aqueles pensamentos que teimam voltar à tona. Como num filme, ouço risadas ou palavras entrecortadas por suspiros de impaciência. E sempre as mesmas imagens: trocas de olhares, ambos com as bochechas em fogo ou então os olhos da menina virando para cima, como que suplicando a si mesma para que acabe logo com essa paixão não-dita. Aliás, quando vou acabar com essa paixão não-dita?

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A Legal e o Otário- João N. Valente

Aparentava ser uma mocinha recatada. Ainda na faculdade, uma privada de alto estilo, usava aquele perfume Giovanna Baby. Mas o cheiro que gostava mesmo era aquele que parecia com água sanitária. Estudou a vida toda nos melhores colégios, comportando-se como uma donzela pudica, casta. Ninguém nunca desconfiara não só de seus desejos, mas nem de suas ações.

Desde o colégio, gostava de postar-se à frente, carregar o livro do professor, procurava tirar as maiores notas e estudava até tarde no colégio. Mesmo em épocas festivas, não arredava o pé da instituição de ensino, afinal, criada em condomínio fechado, não tinha muita chance, enquanto adolescente, de dar suas escapadas. Mas lá encontrava os meios de aplacar o pulsar de seus anéis umedecidos.

Certa feita, sozinha, pois era um dia de copa do mundo, estava ela lá, e apenas o rapaz da limpeza. Fingia, a jovem, estudar biologia, e o cidadão a limpar o pátio em frente à área de estudos. Ela, então, que naquele calor só poderia estar de saia, flertou com pobre coitado que, perdido, desconsiderava a possibilidade de se tratar para ele a doce benfazeja abertura ventral; mas a moçoila, que com o lápis na boca, desligada do mundo, apenas balouçava a perna direita, sabia construir seu caminho e fazer com que os carneirinhos caminhassem por ele. Ainda mais esses, que lhe pareciam ter membro jumental.

Enfim, esse jovem faxineiro, foi apenas um daqueles que passaram pelos seus desejos. Ela não poderia deixar, todavia, que entrevissem esse seu furor vaginal, de modo que logo arrumou um namoradinho, um tolo, sonhador, um daqueles babacas apaixonados por livros e sonhos. Assim ela poderia enrolá-lo facilmente. E assim o fez. Saiu com professores, professoras, assistentes, seguranças.

Aos dezessete anos entrou na faculdade. Manteve o relacionamento com o jovem otário. Afinal, não podia perder a pose! Sua origem, sua família, seu condomínio!! Não se importava com dinheiro. Até lhe ofereceram dinheiro e bens, mas ela queria era sexo. Ela não se importava por objetos, a não ser por aqueles que poderia introduzir no seu âmago.

Cada vez mais, o ímpeto sexual lhe domava. E, assim como antes, agia por impulso, sem pensar. Mas agora sua voracidade fazia com que trepasse com dois, três homens; com homens e mulheres juntos. Certa feita, para que desse tesão a um homem por quem quase se apaixonou – sim, ela não se apaixonava, só tinha ímpetos... – amou uma malacatifa (que não era peçonhenta).

Hoje, ela continua feliz. Prossegue no uso de seu otário. Este nunca descobriu, mas é feliz. Até hoje a ama. Só não entende por que ela não quer ter filhos. Trabalha oito horas num escritório e procura tratá-la com respeito, amor e afeto. Mas nunca, jamais!, tentou comer-lhe o cú.

domingo, 4 de julho de 2010

O pretérito do preterido- Anônimo

Reli o que a ela escrevi...


Não é possível que escrevi algo errado.
Não é possível que ela não tenha gostado.


O fato é que gostei e foi sincero.
Saiu do meu íntimo.
Se não atendeu aos seus anseios,
que pena. Adeus.


É tão triste quando se faz algo pensando
ser o belo para alguém e acaba sendo
algo triste, dissaboroso
- ou quiçá asqueroso?


Não posso julgar por ela.
Posso, apenas, por mim.


E por mim foi de coração.
Sincero, com amor, com carinho.


Meus limites literários circunscreveram apenas a exterioridade do que senti.


Pena aparecer agora o verbo no pretérito.
Pior mesmo é estar no pretérito perfeito.
Em breve estará no mais-que-perfeito.
Só isso, então, terá sido mais que perfeito entre nós.
O pretérito.

terça-feira, 29 de junho de 2010

a fenda- Rolando Vezzoni

Saiu correndo, não queria ser preso, não lhe parecia uma boa idéia, e foi assim que chegou até aquela cidadezinha no meio do nada, chamava-se “Satisfatópolis”.
Cidade limpa, casas parecidíssimas, havia apenas um boteco que monopolizava o público da cidade.
Sabendo que ninguém lhe acharia ali, tranqüilizou-se, e foi ao tal do boteco, “João sem cérebro” onde ele descobriu, que não vendiam-se entorpecentes, e sim tiravam pedacinhos do cérebro e lhes davam em troca prazer e uma peruca.
Saiu relativamente consternado de lá, e bastante enjoado.
Andou para bem longe e entrou num cinema... Várias pessoas(?) vidradas olhando para a tela, o filme ainda estava para começar... “o dia em que nós achamos o que fazer com os livros”, produzido pela “microcéfalos felizes” e dirigido e filmado por um tal de “ Walter Ego’co Letivo”. O filme se baseava em apenas uma imagem, uma fogueira imensa e vários mamíferos bípedes jogavam livros e mais livros nessa fogueira, (o filme era algo semelhante a um descanso mental de um homem senil com uma doença degenerativa e crônica) depois de alguns minutos sentia sua cabeça explodindo, não dava para continuar ali, o que o levou a sair correndo novamente.
Continuou correndo pela cidade atrás de algo, o qual nem imaginava o que fosse, sabia apenas que não seria como o povo de Satisfatópolis, e também não queria ser preso, continuava não lhe parecendo uma boa idéia... ficar preso naquelas bandas não era uma boa ( dizem que tem paredes brancas como marfim, e a comida é uma massa cinzenta nada apetitosa, e que, se consumida em grande quantidade, causa seqüelas mentais ).
Viu -se de repente correndo sem mudar de lugar, depois que se tocou, olhou para baixo e começou a cair num precipício (maravilhosamente mórbido e interminável) conhecido como “verdade” ou como “conhecimento”.
passaram-se anos, e ele continua caindo, não está na cidade, na prisão e tampouco encima do muro, deveria estar ele em algum tipo de fenda( numa... fenda?)...

Fumaça- Lígia Fernandes

Caminhando sem rumo, tropeçando nos próprios pés. Tombando de um lado para o outro, sem conseguir encontrar seu ponto de equilíbrio, encontrou um poste e ali parou. A luz estava apagada. Um breu total...

As vontades e desejos da manhã resumidos em trapos. A vontade de viver já não é a mesma, aliás, pra que viver? No momento, a única esperança que tinha, a única luz visível, era o fogo do isqueiro que, de tempos em tempos, era apagado pelo vento. Nem isso era certo.

Deu um trago... A fumaça lhe encobria todo, era capaz até de sentir o cheiro da moça, o cheiro da roupa impregnada de cigarro. Sentiu-se abraçado... Não, ela não está aqui! Ficou louco...

Lembrou-se, então, como fora a despedida. Berros, tapas, cacos de vidro no chão. A porta bateu. Por isso estava ali caminhando sem rumo, tropeçando nos próprios pés.

domingo, 27 de junho de 2010

é noite?- Rolando Vezzoni

É noite(parece noite), e uma ladeira, descendo indefinidamente, na qual passa um vento seco e frio, que corta o rosto como navalhas.
Passa a mão pelo rosto, fecha o olhos respirando fundo, muito fundo, e olha devagar a sua volta.
Prossegue (despenca) ouvindo baixo uma musica a qual lhe percorria como uma gota de suor, e enquanto escorre por seu pescoço, percebe que o tempo está, de fato, passando.
Escutava agora diálogos aleatórios, redondos e redundantes, não poderiam ser chamados de diálogos, era mais como palavras lançadas sem nenhuma importância(nem para o lançador, nem para o rebatedor)... Estas caiam como neve congelando sua cabeça.
Havia casas e camas espalhadas pela rua, homens de terno com moças de cabelo alisado, crianças pequenas e perdidas vestidas como adultos(não seguravam brinquedos, apenas uma pena)... Tudo isso lhe sufocava em quadros sobrepostos e repetitivos temperados com uma névoa pesada que lhes escondiam os rostos(não faz diferença, são apenas figurantes).
Esses agora param, olham e apontam rindo de uma figura tão desencaixada descendo uma ladeira a qual não via mais beleza nem sentido, apenas um chão cinza cheio de pernas sem cabeça.
Eles sabem que existe ALGO, apenas não sabem O QUE é... E ele também não.

Pobre Diabo- Caio, Enzo, Turella, João Pedro e Julian

Eu,
somente com visões,
acabei com toda a minha esperança moribunda,
e me despertei do azul impalpável.
Uma imensa sofridão,
oriunda do meu peito apertado,
do ranho divino, promovido pela Igreja.
Sou agora O Maldito!
que te pertuba em meio ao sonho bom;
entoando toda noite,
a Ode ao Terror.

Silêncio com café- Lígia Fernandes

Cheguei em casa e lá estava ela: sentada no canto da sala lendo Alberto Caeiro e seu realismo sensorial. Estava frio. Era inverno. A luz que entrava e a aquecia vinha somente por uma frestinha não coberta pela cortina. Estava linda, radiante. Tão concentrada na leitura que passei despercebido. Fiquei, então, a observando apoiado na porta. Suspirei - como é boa a sensação!!

Senti que me notou, pois já não mudava de página há um tempo. Vi uma covinha, de leve, aparecendo no canto esquerdo do rosto. Seus olhos castanhos e profundos se levantaram até chegarem de encontro aos meus. Foi aí que iniciamos um longo diálogo num silêncio capaz de nos deixar ouvir até a poeira visível no feixe de luz cair no chão.

Ela se levantou. Eu sorri, por um instante a vi andando até mim, me beijando, me abraçando com toda aquela paixão misturada com o medo de me perder. Mas se abaixou. Sentou-se no chão sem desligar os olhos castanhos dos meus. Estava, de alguma maneira, me chamando. Sorri e andei. E sentei-me ao seu lado.

Agora, também sentia o feixe de luz me aquecer. Não só isso, havia, também, o calor dela, o nosso calor. Deitou a cabeça em meu colo e seu olhar me pedia um cafuné. Aquele cabelo macio e cheiroso... Queria era me deitar ao seu lado, abraçá-la... Não me contive aos cabelos. Minhas mãos contornaram o mais perfeito corpo, caminharam o mais prazeroso caminho. Nós dois sempre sorrindo. Conversando sem palavras.

Ela, então, se levantou e correu. Rapidamente voltou, com duas canecas de café preto. Foi ali que ficamos o resto da tarde, foi assim que ficamos o resto da tarde: tomando café e conversando num silêncio capaz de nos deixar ouvir até a fumaça quente do café se desfazendo ao encontro com o ar frio do inverno.

Devaneio- Giovana Vilela

As marcas do tempo sempre me encontram. Seja no pé daquela janela de madeira, seja nas rugas da minha velhice precoce. O amor que já não pertence a mim bate na porta novamente. Porém, outra vez me decepciona, indo em direção contrária. E me confunde: não sei se estou aqui ou ali. Permaneço com os ouvidos por perto e o olhar distante. Procuro os olhos dele, enquanto sou censurada por outros. É tudo questão de olhar... e amar. Será que ele pensa em mim? Será que EU ainda posso pensar nele? As mil juras de uma vida entregue àqueles braços me atormentam e me encontram. Assim como as feridas de outrora, durante os constantes devaneios. Tenho medo de me entregar. Sei que vou sofrer. Não sei se vivo o presente, o futuro ou o passado. Cada um com surpresas ou perigos. E o último com mais lembranças. Que sacodem o meu sono e me fazem sufocar. Muito cedo o telefone toca e me recuso a atender. O vento sopra e fica ainda mais difícil esquecer.